Pandemia: O RISCO DE UMA CATÁSTROFE GERACIONAL NA EDUCAÇÃO

Não, ainda não é hora de voltar às aulas. O risco de contágio pelo coronavírus continua altíssimo. Mas como será o futuro? Como ficará o processo de aprendizado? Estamos perdendo tempo?

Alguns dos principais pesquisadores do assunto no País dizem que para sair dessa enrascada educacional e pavimentar uma retomada sólida nos próximos meses, será preciso desenvolver, daqui para frente, novas modalidades de ensino híbrido, que combina atividades presenciais e não presenciais. O maior problema, porém, é que no Brasil há milhões de estudantes digitalmente excluídos, que estão, no momento, sem qualquer atividade escolar.

A pandemia e o isolamento social colocaram a educação num impasse. Ou ela se transforma, porque o velho mundo acabou, ou ela não vai mais funcionar. As coisas nunca mais serão como antes e é preciso recuperar o tempo de aprendizado que está sendo perdido e estabelecer uma estratégia de retomada. É um momento de alta tensão, mas há luz no horizonte. Será necessário um trabalho duro e capacidade inovadora para superar as consequências do isolamento prolongado e oferecer para as crianças e adolescentes novas perspectivas de ensino.

A volta das atividades presenciais está se iniciando em algumas cidades e, em outras, existe muita incerteza e preocupação sobre um eventual retorno. Mas independentemente do momento da retomada, o ensino, daqui para frente, se tornará cada vez mais híbrido, combinando atividades presenciais e não presenciais.

O problema é que no Brasil há uma desigualdade gritante e milhões de alunos de todos os níveis estão excluídos digitalmente. Calcula-se que um quinto dos estudantes brasileiros estejam, hoje, sem realizar qualquer atividade escolar.

O desafio que se tem pela frente é mundial e tão grave, que, há duas semanas, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse que o mundo está diante de uma “catástrofe geracional” por causa da interrupção ou da precarização das aulas em todo o mundo. Segundo Guterres, até meados de julho, as escolas estavam fechadas em 160 países, afetando diretamente mais de 1 bilhão de estudantes. Pelo menos 40 milhões de crianças perderam a pré-escola neste ano.

“Agora, encaramos uma catástrofe geracional que pode desperdiçar incontável potencial humano, prejudicar décadas de progresso e exacerbar desigualdades entrincheiradas”, disse o secretário-geral da ONU, ao lançar a campanha “Salve nosso Futuro”. “Assim que a transmissão local de Covid-19 estiver sob controle, colocar os alunos de volta às escolas e instituições de ensino, com o máximo de segurança possível, precisa ser uma prioridade”, disse.

Apesar de prioritária, não há consenso de quando e de que forma ela deve ser feita. Tudo depende da evolução da pandemia. E, por enquanto, o risco é alto e não vale a pena arriscar. Pesquisa do Instituto Datafolha mostra que 79% da população são contra uma abertura precipitada.

“Para que haja a volta às aulas é necessário que a transmissão esteja em queda”, afirma o infectologista Leonardo Weissmann, médico do hospital Emilio Ribas e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “E a situação ainda está fora de controle”. Manaus (AM), lugar onde, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, já se verifica uma tendência de desaceleração da pandemia, foi a primeira capital do País a tomar a decisão de reabrir as escolas públicas e privadas.

Vários cuidados estão sendo tomados, como regras de distanciamento, uso de máscaras, medição de temperatura, recomendação de lavagem frequente das mãos e disponibilidade de álcool em gel. Mesmo assim, o sentimento de risco de infecção é alto e se percebe um medo generalizado dos alunos de voltar a frequentar as aulas. “É um grande desafio fazer com que as crianças respeitem as regras durante todo o tempo”, diz Weissmann.

Um estudo recém-concluído pela Escola de Medicina da Universidade de Harvard mostra que as crianças têm alta carga viral e podem ser mais contagiosas do que adultos.

Na capital amazonense, retornaram às aulas cerca de 110 mil estudantes do ensino público e 60 mil do privado. Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas descartou a reabertura das escolas antes de outubro. No Rio de Janeiro, as aulas presenciais estão previstas para voltar dia 15 de setembro nas escolas privadas e dia 5 de outubro nas públicas.

“Temos pouco conhecimento sobre a Covid-19 e por isso a população está contra a volta das escolas. Há insegurança e incerteza”, diz Raquel Teixeira, conselheira do Conselho de Gestão de Educação do governo de São Paulo. A capital paulista chegou a anunciar a retomada do ensino presencial, mas a reação negativa fez com que a medida fosse adiada. A volta, antes prevista para o dia 8 de setembro, será dia 7 de outubro.

Baseado em pesquisas e análises de profissionais da área, o governo estadual optou pela autonomia dos municípios na gestão da crise. “Talvez, em um primeiro momento, a escola fique disponível para um, dois, três alunos e professores que precisem usufruir de uma boa internet e melhor infraestrutura”, prevê.

Para a educadora Maria Helena Castro, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave), o ponto de partida da retomada das aulas é o respeito às decisões das autoridades sanitárias.

“A preocupação da ONU com uma catástrofe é real e o maior problema imediato que temos é a evasão dos alunos do ensino médio”, diz. “Estudantes mais vulneráveis, com dificuldade de acesso à internet, poderão ser prejudicados pelo resto da vida”.

Em 2018, o índice de abandono, no primeiro ano do ensino médio, foi de 28%. Os desistentes, em geral, são adolescentes com atraso escolar e idades que variam de 16 a 18 anos. A pressão sobre esse grupo, que já é alta, devido ao abandono da escola para entrada no mercado de trabalho, se intensificou mais com a pandemia e causou perda de motivação e dificuldades adicionais para continuar nos estudos.

Segundo Maria Helena, a desistência nessa fase da vida estudantil é verificada em várias partes do mundo. Em Nova York, diz, 20% dos alunos abandonaram o curso.

Maior desigualdade

Maria Helena também destaca que se a retomada não for bem feita pode aumentar a desigualdade escolar, um problema grave do sistema de ensino. Atualmente, 85% dos 48 milhões de estudantes brasileiros estão em escolas públicas. É esse grupo que está sendo mais afetado pela interrupção das atividades presenciais.

Nas escolas privadas, que contam com as ferramentas necessárias para desenvolver atividades remotas, os avanços em direção a um modelo de ensino híbrido foram intensificados. Há, também, apoio de consultorias, prestadas por hospitais como Albert Einstein e Sírio Libanês, para estabelecer protocolos de retorno personalizados.

Na rede pública, porém, a situação é diferente e bastante desigual. Além do ensino médio, os alunos de alfabetização também formam um grupo com alto risco de sofrer graves prejuízos com a interrupção das atividades presenciais. São estudantes que precisarão de uma educação intensiva e de um plano individual de recuperação.

“O ano não está completamente perdido, os alunos estão desenvolvendo habilidades socioemocionais e se familiarizando com atividades remotas e interativas”, diz Maria Helena. “Daqui para frente, o grande desafio da escola pública será garantir a conectividade”.

Na zona sul da capital paulista, Catarina, Eduarda e João, 11, 8 e 6 anos, respectivamente, vivem o ensino à distância de maneiras distintas. João, o caçula, que está em fase de alfabetização, é o pólo mais fraco quando a questão é estudo remoto. A pouca idade faz com que ele fique irritado e disperse muito mais rápido do que os outros irmãos.

Para João, computador virou sinônimo de incômodo. A tela não é atrativa, os amiguinhos estão distantes e o professor já não mais acompanha ao vivo o seu desenvolvimento.

“Dos meus três filhos, o João é o que mais está sofrendo, principalmente porque ele está começando a vida escolar”, diz Paulo Curio, diretor executivo do aplicativo iFood. Dentro do apartamento, Curio pôde observar o ensino remoto pela perspectiva de três faixas etárias diferentes e viu que, com os mais velhos, ela é eficaz. De qualquer forma, a rotina está tumultuada. E a imediata volta às aulas é descartada.

“É muito difícil não ter essa vontade para que eles voltem, mas gostaria de um horizonte mais claro. Não tem a menor possibilidade de a escola ser normal até todo mundo estar vacinado”, diz Curio.

“Um legado da pandemia será o ensino híbrido. Vamos integrar a tecnologia com a aprendizagem presencial”, diz Mozart Neves, professor catedrático da USP. O coronavírus está possibilitando um jogo de tentativa e erro para a construção de um novo modelo escolar. As mudanças feitas no susto, a partir da pandemia, poderão se tornar um bom caminho para traçar novas metas e possibilidades de desenvolvimento para os alunos. A tecnologia, antes vista como adversária de um modelo tradicional, passou a ser a principal aliada de estudantes e professores. Sendo assim, o ensino presencial e o não presencial passarão a andar juntos.

“O mundo digital faz parte do século XXI. Dizer que isso não fará parte da educação daqui para a frente é desconsiderar tudo o que foi feito ao longo da pandemia”, diz Neves. A ideia é transformar o aluno em tempo integral, para que os recursos presenciais e tecnológicos andem lado a lado, de forma a melhorar o desempenho.

“Só o online não funciona, mas uma junção dos dois seria uma melhora importante”, diz Rodrigo Portella, estudante de 15 anos da rede privada que não vê a hora de retomar as atividades.

“Eu só aprendo 40% com o conteúdo tecnológico”. A empresária e mãe do adolescente, Juliana Portella, acompanha o desespero do filho de perto e, por isso, acredita que o ano letivo só será recuperado em 2021.  “Se as escolas em São Paulo reabrirem agora serão só três meses de aulas antes das férias, o que vai impactar no aprendizado”, afirma.

Mesmo em meio a uma terrível crise sanitária, está todo mundo descobrindo novas formas interativas e interessantes de ensinar e aprender à distância. Ainda que o quadro de enorme desigualdade educacional que existe no Brasil tenda a se agravar e o risco de uma catástrofe geracional seja real, a experiência da pandemia contribui para transformar a escola, num movimento sem volta. Silenciosamente, a educação está sendo reinventada.

Guerra dos livros

Se já não bastasse o conturbado cenário do ensino brasileiro, o ministro da Economia Paulo Guedes propôs uma reforma tributária que prevê uma taxação de 12% em livros, que eram isentos de impostos desde 2004.

Detalhe: em um País em que a média de leitura é de somente dois livros por ano. Ainda assim, o ministro diz que isso beneficiaria a economia porque os consumidores pagarão mais impostos. Só que a matemática desse cálculo é clara: livros mais caros, menos leitores.

 

(Da Redação com ISTOÉ)

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