VÍTIMAS DA CORRUPÇÃO, PAIS E ALUNOS LAMENTAM DESVIO DE DINHEIRO PARA CONSTRUÇÃO DE ESCOLAS NO PARANÁ

Enquanto a Justiça analisa a responsabilidade e as eventuais punições aos culpados pelo desvios de dinheiro na construção de escolas estaduais no Paraná, pais e alunos lamentam as obras paradas e o descaso com o dinheiro público. Os casos investigados pela Operação Quadro Negro atingem diretamente crianças de várias cidades do estado, que seguem com dificuldade para terem acesso a um dos direitos mais básicos: a educação.

No bairro Jardim Paulista, em Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba, os filhos do vigilante Marcos Antônio Duarte estão sem estudar, porque os mais de R$ 4,5 milhões que foram seriam usados para construir uma escola foram desviados. Segundo ele, as crianças estão sem ir às aulas porque não há vagas em outras escolas próximas.

A escola do bairro deveria abrigar 1,8 mil alunos, mas no local há apenas algumas paredes erguidas, sem teto, nem piso. Tudo está coberto pelo mato e pela sujeira. “Uma tristeza, né? Um espaço grande que nem esse, uma obra parada. Ficamos sabendo do dinheiro que foi desviado”, lamenta o vigilante.

Na quarta-feira (2), o Ministério Público apresentou sete novos processos, pedindo R$ 41 milhões às pessoas apontadas como autoras da fraude. Os promotores querem que 18 pessoas sejam condenadas por improbidade administrativa e devolvam os mais de R$ 20 milhões além da multa, que chega ao total do pedido. A fraude, segundo as investigações, serviu para gerar dinheiro de propina e pagamentos de origem ilícita a funcionários públicos. Há também um processo criminal em curso, que está parado.

Sem uma resolução, a aposentada Joana Ferreira seguirá caminhando uma distância bem maior para poder levar os netos Elizeu e Murilo à escola. “Podia subir e ver da minha área, lá em cima [de casa] e ver a hora que sairiam daqui. Eu pensei que agora meus netos poderiam ficar pertinho de casa. Não precisaria levar tão longe”, diz.

Tão longe, tão perto

Em outro ponto de Campina Grande do Sul, na zona rural, a escola mais próxima atualmente fica a 25 quilômetros de distância, o que obriga as crianças a acordarem de madrugada para poderem estudar. É preciso pegar um ônibus, que vai pela BR-116 até o local.

Tudo isso porque os R$ 3,3 milhões que o governo do estado repassou à empresa responsável pela construção de uma escola no bairro nunca foram aplicados na obra. No local, há apenas fundações inacabadas, com ferro retorcido e sem perspectiva de entrega.

“Quando começaram a construir ali foi uma alegria para mim e até para a minha mãe. Porque ela não ia precisar levantar cedo para me acordar e não ia precisar ficar se preocupando”, conta o jovem André de Souza, de 12 anos de idade.

“Aí, tenho que acordar cedo, tenho que pegar ônibus. Às vezes ainda perco o ônibus, porque acordo atrasada ou saio atrasada”, diz a estudante Kauane Lima, de 14 anos.

Clauriane do Nascimento, de 13 anos, afirma que passa por uma rotina ainda pior que a dos colegas. “Ah, para mim, é muito difícil, porque eu tenho que acordar muito cedo, pegar uma van, até chegar aqui [no bairro] e depois mais um ônibus para chegar lá [à escola]. Fico muito triste em saber que ali eu poderia ter um futuro. Chegar ali e ver daquele jeito, a gente perde até as esperanças às vezes”, lamenta.

Para a mãe de Clauriane, o sentimento é de revolta. “Eles fazem tantas coisas, fazem estádio de futebol, constroem presídio e o colégio para a educação, nada. Cadê o dinheiro que era para construir o colégio? Não está aí, foi para o ralo. Aí é a população que sofre”, reclama.

Fraude por todo o Paraná

O mesmo problema de Campina Grande do Sul é visto em outros cinco municípios do estado. Em todos eles, o governo contratou a Construtora Valor para fazer as obras de construção e reforma. Segundo as investigações, o problema se repetiu em todas as obras, em maior ou menor grau.

A investigação apontou que a fraude consistia na falsificação de relatórios feitos por engenheiros da Secretaria da Educação (Seed). Eles assinavam documentos em que constavam que as obras estavam em andamento, dentro dos respectivos cronogramas. O governo, por sua vez, liberava o dinheiro para a Valor, que na prática não executava as obras no ritmo adequado.

De acordo com os processos, o esquema era comandado por funcionários públicos e também tinha apoio de setores políticos do estado. Até este mês de agosto, ninguém foi condenado pelos supostos desvios.

Outro lado

Em nota, a Secretaria da Educaçao afirma que foi o primeiro órgão a investigar as supostas fraudes e que encaminhou todo o material obtido por uma auditoria interna, em 2015, ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas do Estado. Ainda de acordo com a pasta, houve o reforço do controle interno e das auditorias.

O Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar) informou que as obras para a conclusão dessas escolas estão em andamento. O órgão passou a ser o responsável pelas obras.
Os advogados da Construtora Valor não foram encontrados para comentar a reportagem.

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