Temer vai conspirar com Trump contra a Venezuela?

Michel Temer abrirá a Assembleia Geral da ONU na terça-feira 19 em Nova York, privilégio dos presidentes brasileiros, não importa quantos votos e denúncias eles tenham. O Itamaraty suava para conseguir marcar reuniões bilaterais de Temer com líderes estrangeiros de peso. O único que ele deverá encontrar será Donald Trump, em um jantar para o qual Colômbia e Peru também foram convidados pelo anfitrião. Um repasto com cheiro de conspiração contra o chavismo.

 A crise na Venezuela deverá ser um dos assuntos dos comensais, segundo fontes diplomáticas. Em 11 de agosto, Trump declarou que considera usar “uma possível opção militar” no país. Duas semanas depois, um de seus assessores de segurança nacional, general HR McMaster, comentou: “Qualquer decisão será tomada em acordo com nossos parceiros na região”.

O Brasil de Temer e historicamente a Colômbia são parceiros do Tio Sam na América do Sul. Em novembro, participarão juntamente com EUA e Peru – ou seja, toda a turma do convescote planejado pela Casa Branca em paralelo à ONU – de um treinamento militar na Amazônia brasileira. Será inédito: jamais as tropas norte-americanas botaram os pés ali.

O exercício militar será na tríplice fronteira Brasil-Colômbia-Peru, a uns 600 km da Venezuela. Reportagem recente da versão impressa de CartaCapital mostrou que partidários do chavismo estão desconfiados. Acham que os EUA terão a chance de conhecer o terreno e de estimular mercenários para atiçar a crise interna a ponto de estourar uma guerra civil por lá. Bem ao lado do Brasil.

Desconfianças vistas por aqui também. “Esse exercício devia ser suspenso imediatamente”, afirma Celso Amorim, ex-ministro da Defesa. “Há uma combinação de fatos extremamente preocupante”, diz ele, como o treinamento, as faíscas entre chavistas e opositores, a beligerância de Trump e a postura brasileira em relação ao governo de Nicolás Maduro.

“O Brasil hoje é o maior inimigo da Venezuela, não são os EUA”, comenta surpreendentemente uma autoridade brasileira. “No Itamaraty, há quem defenda uma posição mais branda, mas o Serra radicalizou e o Aloysio continuou nessa linha.”

Primeiro chanceler de Temer, o senador José Serra, do PSDB, foi duro contra Maduro desde o primeiro dia. Seu sucessor, outro senador tucano, Aloysio Nunes Ferreira, faz o mesmo. São inúmeras as notas oficiais contra a Venezuela emitidas pelo Itamaraty desde maio de 2016. Nenhum outro tema mereceu tanto.

“A Venezuela está isolada e radicalizou por causa da posição do Brasil. As declarações do Serra e do Aloysio causaram isso”, diz um embaixador da ativa. “Eles agem assim por razões pessoais e midiáticas, não há qualquer planejamento: ‘Há demanda por endurecimento com a Venezuela? Então vamos criticar’.”

Um exemplo de exploração midiática por Ferreira foi a passagem por Brasília em fins de agosto da ex-procuradora-geral venezuelana Luisa Ortega, rompida com o chavismo. Destituída da Procuradoria pela Assembleia Nacional Constituinte semanas antes, ela disparou ataques ao governo de seu país enquanto esteve na capital brasileira.

Ferreira fez questão de recebê-la no Itamaraty e posar junto para fotos. “Totalmente fora de lugar”, diz o embaixador da ativa. Temer queria recebê-la no Palácio do Planalto, mas foi desaconselhado. Antes de vir ao Brasil, Luisa tinha ido à Colômbia pedir asilo e não falou com o presidente Juan Manuel Santos.

Se encontrasse Temer, teria sido curioso. Ortega acusa Maduro de receber milhões em propina da Odebrecht. O peemedebista não fica atrás, segundo a última “flechada” de Rodrigo Janot, que deixará o cargo de procurador-geral no dia em que Temer decola para Nova York, a segunda-feira 18.

Bandalheiras à parte, a crise venezuelana e a postura brasileira pró-derrubada de Maduro parecem já causar prejuízos financeiros por aqui.

CartaCapital apurou que a Venezuela acaba de atrasar o pagamento de 260 milhões de dólares ao governo brasileiro. Refere-se a uma prestação vencida no início do mês relativa a financiamentos. No total, o governo tem um crédito estimado de 1,2 bilhão de dólares com a Venezuela, entre empréstimos do BNDES e do Credit Suisse, este garantido por dispositivos estatais.

O motivo do atraso seriam problemas técnicos provocados pelas recentes sanções econômicas aplicadas à Venezuela pelo governo Trump, uma tentativa norte-americana de apressar a derrocada do chavismo. No Brasil, há diplomata crente de que o atraso é culpa da radicalização brasileira contra Maduro. E a contar que Ferreira anda nervoso por causa do assunto.

Se o estrangulamento financeiro venezuelano continuar, o setor privado também tem grana gorda a perder. Créditos de 5 bilhões e 6 bilhões de dólares, cifras apresentadas na Câmara dos Deputados em 30 de agosto pelo embaixador Tarcisio de Lima Costa, diretor do Departamento da América do Sul Setentrional e Ocidental do Ministério das Relações Exteriores.

Diante desses bilionários créditos, disse Costa, o Brasil “não pode ficar indiferente ao rumo da Venezuela”. A julgar pelas declarações e gestos do chanceler Nunes Ferreira, o Brasil não tem estado nada indiferente. E a julgar pelo futuro jantar Temer-Trump, não tem estado até demais.

 

Com Carta Capital

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