SAÍDA PELO MAR: A SITUAÇÃO PORTUÁRIA DO PARANÁ E AS PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Panorama atual e projeções de investimentos aumentam importância da estrutura de portos do estado

Se a base econômica do Paraná é a agropecuária, a logística portuária é a mola que impulsiona a movimentação no estado. Assim, qualquer tipo de retração acaba tendo reflexos substanciais no desenvolvimento local. Por muito tempo, por falta de recursos e problemas operacionais, a chegada e a saída de produtos pelo mar foi um entrave caro para a economia paranaense. Atualmente, a estrutura disponível chegou em um patamar mais do que aceitável e há perspectivas de investimentos públicos e privados que podem alterar sobremaneira o perfil portuário do Paraná. Todos os especialistas consultados pela Gazeta do Povo afirmam que o cenário melhorou muito na última década e que o setor experimenta um momento especial.

Não só a agropecuária depende do transporte portuário – mas sem ele, essa atividade, que por aqui é muito baseada na exportação, travaria todas as demais cadeias produtivas. Combustíveis, veículos e outros produtos industriais de alto valor agregado também saem e chegam por navios. Nesse tipo de operação, que considera diversos fatores além da distância rodoviária, é comum que toda a produção de um determinado estado não vá apenas para o porto mais próximo – fosse assim, Paranaguá não receberia cargas vindas de Santa Catarina ou São Paulo. Mas a estimativa dos especialistas é que, com investimentos e adequações, dá para baratear custos, como o frete de caminhão, e tornar o porto paranaense bem mais atrativo para o setor produtivo local. Hoje a estimativa é de que 40% das cargas do Paraná são transportadas por portos de outros estados.

Esse número é um dos indicativos de que a infraestrutura portuária do litoral paranaense ainda tem muito espaço para crescer – sem esquecer o escoamento da produção de outros estados, como Mato Grosso do Sul, e até de outros países, como o Paraguai. Além do Porto de Paranaguá, que tem batido recorde atrás de recorde e está se preparando para aumentar ainda mais a capacidade, o Porto de Antonina tem potencial ainda não totalmente explorado e há dois outros portos privados em projeto para a instalação em breve.

Públicos e privados

Para passar a marca histórica de 50 milhões de toneladas transportadas pelos portos de Paranaguá e Antonina foi necessário realizar um conjunto de investimentos públicos e privados que alteraram profundamente as perspectivas no setor portuário na última década. “Se a chuva deixasse e não tivesse a greve de caminhoneiros, poderíamos chegar a 58 milhões”, lamenta Lourenço Fregonese, presidente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa). “Diziam que 40 milhões era o limite da capacidade, mas já batemos 51,5 milhões”, complementa.

Foram R$ 2 bilhões em recursos privados e mais R$ 1 bilhão em dinheiro público, em intervenções no mar, construção de armazéns e silos, ampliação de cais e terminais e modernização de equipamentos usados no carregamento. Com isso, nos últimos cinco anos, a Appa movimentou US$ 31 bilhões em importações e exportações, o que corresponde a 35% do Produto Interno Bruto (PIB) do Paraná. Além disso, aproximadamente 80% da produção das cooperativas do estado circula pelos portos paranaenses. Também cresceu muito o investimento e a movimentação no Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP), que está finalizando as obras de expansão do cais de atracação de navios, passando dos atuais 879 metros para 1.099 metros de extensão, ao custo de R$ 115 milhões. Outros R$ 468 milhões devem ser aplicados em 2019 na expansão da retroárea, como parte do acordo de renovação antecipada do contrato de arrendamento por mais 25 anos, até 2048, assinada em 2016 com o governo federal. Com as obras, o TCP ampliará em 60% a capacidade de movimentação. Desde março de 2018, a operação é comandada pelo grupo China Merchants Port Holding Company (CMPort).

Uma série de outros investimentos privados também mudou o cenário em Paranaguá. Foi o caso do terminal de líquidos inaugurado em junho pela CBL, com investimento de R$ 200 milhões. São 18 tanques, atualmente operando 100% com combustíveis e com previsão de chegar à capacidade total em 18 meses. A empresa também tenta viabilizar dois pátios de caminhões, para ampliar a estrutura pública hoje oferecida pela área de triagem do porto.

Compasso de espera

Em contraponto aos avanços, outros setores ainda esperam que entraves burocráticos sejam vencidos para a realização de investimentos. É o caso da necessidade de ampliação da estrutura para aumentar a quantidade de navios que podem ser recebidos. O terminal da Cargill espera desde 2016 a autorização federal para construir um píer em L, com capacidade para dois berços. A obra, além de modernizações de equipamentos, faz parte da proposta para renovar o arrendamento do terminal. Segundo André Maragliano, gerente-geral da Cargill em Paranaguá, atualmente a empresa movimenta 2,5 milhões de toneladas no próprio terminal e ainda mais 1,8 milhão contratando terceiros.

Nilson Hanke Camargo, consultor de Logística da Federação da Agricultura do Paraná (Faep) e atual presidente do Conselho Administrativo da Appa, diz que não falta dinheiro nem projeto. Ele comenta que a Appa está disposta a fazer investimentos que são responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para melhorar o acesso a Paranaguá. Em 2019, devem ser destinados R$ 60 milhões na construção de quatro trincheiras rodoviárias. Camargo comenta também a necessidade de ampliação do pátio de triagem de caminhões. “Não deveria existir [porque o carregamento devia ser mais rápido para não ter espera], mas já que tem, precisa ser adequado para dar vazão nos momentos de picos”, diz.

Já sobre o Porto de Antonina – que hoje funciona prioritariamente para fertilizantes, que descarregam parte em Paranaguá e seguem adiante com o navio menos pesado – não está recebendo investimentos por falta de interesse dos operadores. Além dos problemas causados pela profundidade do canal e do berço, na faixa de 9 metros, que recebe apenas navios menores ou menos carregados, com alto custo de operação, há a dificuldade de acesso rodoviário, com caminhões circulando por dentro das cidades históricas de Antonina e Morretes. A proposta de construir uma rodovia como alternativa para ligar à BR-277 está parada.

Infraestrutura portuária

Apesar dos investimentos públicos e privados que ampliaram a movimentação em Paranaguá, atualmente, cerca de 40% das cargas produzidas no Paraná vão para portos de outros estados. Há uma disputa logística em curso, que deve aumentarcom a possibilidade de instalação de dois novos portos privados.

(Com Gazeta do Povo)

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