Postura do PMDB com Kátia Abreu e Requião mancha sua tradição plural

A história do Movimento Democrático Brasileiro é cercada de contradições, a começar pela própria criação do partido, surgido do ato institucional da ditadura civil-militar que estabeleceu o sistema bipartidário em 1965.

Ao reunir toda a oposição parlamentar aos militares, a legenda acabou por abrigar em seus quadros uma variedade de tendências ideológicas, do liberalismo conservador à social-democracia. Embora imposta à força, a convivência com a alteridade sempre foi uma marca do MDB.

Se os anos de repressão impunham paradoxos à legenda, a atual condição do partido alojado no poder é ainda mais contraditória. Em termos formais, a legenda diz querer reconectar-se a seu passado heterogêneo: quer tirar o “p” da sigla para eliminar, segundo o senador Romero Jucá, “o ultimo resquício de ditadura dentro do PMDB”. A letra inicial, lembra ele, foi colocada à frente da sigla por determinação da Lei Orgânica dos Partidos, aprovada no início do governo do general João Figueiredo.

Com “p” ou não à frente, o PMDB vive, porém, o período mais autoritário de sua história. Não apenas por ter rompido a ordem democrática para chegar ao poder e buscar proteção contra as investigações de corrupção, mas também por rejeitar a diversidade em seus quadros, agora restritos a reproduzirem o discurso único de Michel Temer e seu grupo.

Na quarta-feira 16, os senadores peemedebistas Roberto Requião e Kátia Abreu foram alvos de processos da Comissão de Ética do partido. A senadora, uma crítica contumaz da deposição de Dilma Rousseff e do atual governo, teve sua expulsão recomendada pela comissão e foi suspensa temporariamente de suas atividades partidárias.

Adversário de Temer e suas reformas, Requião também é alvo de pedido de exclusão. Em seu caso, o partido decidiu dar prosseguimento ao processo e designou um relator para o caso.

Idealizado pelo próprio Jucá, o plano para excluir a dupla vem sendo gestado há algum tempo. Em julho, a mídia já relatava sua estratégia para expulsar os senadores. A proximidade de Kátia Abreu com Dilma facilitou o convencimento de seus correligionários. No caso de Requião, ele afirmava nos bastidores buscar uma “barriga de aluguel”, ou seja, encontrar quadros dispostos a encampar o processo contra o senador, filiado ao PMDB desde a década de 1980.

Enquanto Kátia Abreu já apresentou sua defesa, Requião preferiu contra-atacar: pediu a expulsão de Eduardo Cunha, preso em Curitiba, e o afastamento de Jucá até a apuração das denúncias que pesam contra o líder do governo no Senado.

Em vídeo (assista abaixo), o senador defendeu sua trajetória à frente do partido: “Ninguém mais do que eu defende o velho MDB”. Se depender de Jucá e do grupo de Temer, Requião e Kátia Abreu não terão vez no “novo” MDB.

 

Com Carta Capital

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