POR QUE ESCOLHA DE NEYMAR POR REGATA DO BATMAN É ESTRATÉGIA DE MARKETING

Parece não haver forma mais contundente de demonstrar poder sem emitir uma palavra do que desprezar a moda.

Para ser mais exato, vestir-se para que os outros pensem que você a despreza. Neymar Jr., 25, é o mais novo exemplo desse arquétipo antimoda, que de “anti” não tem nada.

Ladeado por executivos engravatados do seu novo time, o Paris Saint-Germain, o jogador apareceu nesta sexta-feira (4) para assinar o maior contrato da história do futebol vestido com uma camiseta regata estampada com o logo do Batman. A patrulha virtual logo reagiu.

“Neymar assinando um contrato de 222 milhões de euros com uma regatinha do Batman e nóis [sic] se matando por um salário mínimo com a camiseta da firma”, escreveu um internauta. Outro perguntou: “Que tipo de pessoa assina um contrato de jogador mais caro com a camisa do Batman?”.

A questão sobre a roupa dos poderosos oscila entre uma maioria que se esforça para mostrar algum grau de seriedade e aqueles que usam o guarda-roupa para desfocar a imagem de “homem que chegou lá”, nicho no qual o atleta se encaixa.

Neymar Jr. é uma celebridade jovem, tem um séquito de fãs tão jovens quanto ele e, espertamente, escolheu subverter a lógica engomada dos “bolas de ouro” e aderir ao visual “street” no ambiente de trabalho. Não soa aleatória a escolha pela estampa de super-herói.

Por mais duvidosas que suas escolhas aparentem ser, a imagem de garoto descolado e rebelde que pode deixar o time dos sonhos para ir aonde bem entender causa um impacto muito maior no imaginário dos “millenials” –parcela da juventude cujo bolso a indústria do entretenimento deseja– do que a de um jovem moldado por fórmulas de conduta.

O desprezo calculado também é mote do discurso de Mark Zuckerberg, 33. No ano passado, o fundador do Facebook disse em entrevista que o fato de só usar calça jeans e camiseta cinza se deve à falta de disposição para “gastar energia em coisas bobas ou frívolas”, porque prefere gastá-la para “servir melhor a esta comunidade [o Facebook]”. Publicidade instantânea e chuva de “likes”.

A notícia rodou o mundo, mas pouco se falou sobre o fato de uma loja on-line, logo depois da fala, começar a vender réplicas da tal camiseta cinza com renda revertida para a Chan Zuckerberg Initiative, a fundação do magnata e de sua mulher, Priscilla Chan.

Comentou-se menos ainda que o “look uniforme” com cara de liquidação é, na verdade, composto por dezenas de camisetas, compradas por R$ 1.200 cada, feitas sob medida pela grife italiana Brunello Cucinelli, a mesma que corta os ternos do magnata e presidente americano Donald Trump.

O efeito Zuckerberg tomou a moda. Não há uma multimarca “cool” nos Estados Unidos ou na Europa que não estampe nas vitrines uma camiseta básica, seja ela com pinta de “podrinha” ou de algodão pima, e grifes famosas pelo look básico, da americana Levi’s à brasileira Hering, acabam de reeditar as peças mais comuns dos seus portfólios para aderir à onda básica.

Muito antes do CEO do Facebook, o da Apple, Steve Jobs (1955-2011), já era notícia com uma mescla de gola rulê preta e par de jeans claro. Mais discreto que o colega da rede social, ele não falava sobre o uniforme de trabalho e muita gente acreditou que se tratava de mais um poderoso pouco afeito às tendências. Ledo engano.

Em um trecho da biografia “Steve Jobs” (2011), o jornalista Walter Isaacson revela que o look surgiu de uma visita do criador do iPhone à fábrica japonesa da Sony, no início dos 1980, na qual perguntou ao diretor da companhia, Akio Morita, por que todos usavam uniformes na companhia.

Ele contou a Jobs que a Segunda Guerra deixou os japoneses sem dinheiro para comprar roupas e, por isso, os uniformes se tornaram constantes nas fábricas, unindo os funcionários. Jobs tentou replicar a ideia na Apple, e foi até o mesmo estilista da Sony, Issey Miyake, para encomendar um desenho de colete para sua empresa.

A ideia não agradou aos funcionários de Cupertino, mas a amizade com Miyake, designer influente da elite “fashion” mundial, rendeu ao empresário centenas de rulês grátis para o resto da vida e uma das assinaturas de estilo mais famosas do século 20.

Para o mundo, a anedota é a prova cabal de que o look “peguei qualquer coisa no armário e vim” é uma grande falácia e estratégia de marketing das mais poderosas.

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