OTAN CELEBRA 70 ANOS EM MEIO A CRISE E DESAVENÇAS INTERNAS

Fundada na Guerra Fria, organização transatlântica enfrenta hoje questionamentos de Trump, para quem EUA pagam a conta para outros membros terem segurança. Alemanha está na mira das críticas

A Otan está na Europa para “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães embaixo”, disse certa vez o primeiro secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o britânico Hastings Ismay, numa roda informal.

A afirmação correspondia a um ponto de vista muito comum nos primeiros anos da aliança militar: a Segunda Guerra Mundial, iniciada pela Alemanha, havia acabado há poucos anos; a antiga União Soviética controlava toda a metade oriental da Europa, inclusive o leste alemão; e os americanos inicialmente ponderavam se deveriam deixar o Velho Continente entregue ao próprio destino e, assim, provavelmente a uma influência ainda maior de Moscou.

A Alemanha, no entanto, não foi mantida “embaixo” por muito tempo, pelo menos o lado ocidental: a República Federal da Alemanha (RFA) logo conquistou tanta confiança que, já em 1955, tornou-se membro da Otan, enquanto a antiga República Democrática Alemã (RDA) se uniu ao antigo Pacto de Varsóvia.

A Guerra Fria, na qual o equilíbrio era garantido pelo poder mútuo de dissuasão, durou cerca de 40 anos. A situação era tensa, mas estável. Tendo em vista as negociações de desarmamento com a União Soviética em 1988, era importante para o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, dizer que Washington sempre teve em vista os interesses dos europeus: “Para mim, manter uma parceria forte e saudável entre a América do Norte e a Europa está em primeiro lugar. Jamais iremos sacrificar os interesses dessa parceria por causa de qualquer acordo com a União Soviética”.

Em 1989/90 a situação mudou radicalmente. O comunismo entrou em colapso, a União Soviética se desintegrou. As potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial concordaram com a Alemanha reunificada como membro da Otan. A grande reviravolta europeia também significou que, ao longo de alguns anos, a maioria dos antigos países do Pacto de Varsóvia, como a Polônia, a Romênia ou os países bálticos, se aliasse à Otan.

Atualmente vê-se o retorno a uma situação semelhante a da Guerra Fria. A Rússia afirma ver-se ameaçada pela expansão da Otan para o Leste e está se armando. Isso retarda uma nova ampliação da aliança atlântica. A Geórgia e a Ucrânia, por exemplo, não devem nutrir muitas esperanças de adesão, já que a aliança militar não quer trazer novos conflitos para dentro de casa.

E conflitos não faltam para a Otan. Desde a década de 1990, ela está intervindo cada vez mais fora do território da aliança em regiões de crise em todo o mundo. Na Alemanha, marcada pela culpa em relação ao passado nazista, isso levou inicialmente a discussões acaloradas, mas hoje o país está envolvido numa série de missões estrangeiras, por exemplo, nos Bálcãs e no Afeganistão.

Em seus 70 anos de história, somente uma vez a Otan evocou a cláusula de defesa mútua para defender coletivamente um membro atacado. Isso aconteceu depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Mas as consequências desencadearam uma dura briga, que dividiu por anos a aliança militar.

Desde que o presidente Donald Trump assumiu o poder, há dois anos, a Otan está de novo sob pressão. Trump questionou repetidamente o sentido da aliança militar e a obrigação de apoio mútuo.

Em 2018, ele questionou por que os EUA deveriam defender um pequeno Estado-membro, como Montenegro, e arriscar uma “terceira guerra mundial”. Ele também destacou que a proteção americana deveria existir apenas para aqueles que pagam o suficiente. Repetidamente, Trump acusou especialmente a Alemanha de gastar muito pouco em defesa.

Na recente cúpula da Otan em 2018, o presidente americano suavizou a sua escolha de palavras, mas manteve a queixa de que os EUA estariam sendo explorados: “Estamos pagando demais para o orçamento da Otan. A aliança é muito importante, mas ela está ajudando mais a Europa do que a nós.”

Na mesma cúpula, a chanceler federal Angela Merkel rebateu, dizendo que a Alemanha deve muito à aliança atlântica, mas também faz muito pela Otan. “Nós contribuímos com o segundo maior contingente de tropas. Colocamos a maior parte de nossas capacidades militares a serviço da Otan. E ainda estamos fortemente envolvidos no Afeganistão, e assim representamos também os interesses dos EUA.”

Desde uma cúpula em 2014, o objetivo oficial da Otan é aumentar os gastos com a defesa “na direção” de 2% do respectivo Produto Interno Bruto (PIB) até 2024. Em 2018, os EUA gastaram 3,39%. Poucos membros europeus da Otan alcançaram a meta de 2% no ano passado; a Alemanha, apenas 1,23%.

Também no mais recente orçamento público alemão, o objetivo está longe de ser atingido. Merkel prometeu 1,5% até 2024, Trump exige “pelo menos” 2%. O Partido Social-Democrata (SPD), que faz parte da coalizão no poder em Berlim, pressiona para conter os gastos de defesa, em linha com a tradição antimilitarista da Alemanha no pós-Gerra.

A meta de 2,0% não deve ser tratada como um “fetiche”, disse o porta-voz de política externa do SPD, Nils Schmid. “A questão decisiva é ampliarmos as capacidades militares, e estamos fazendo isso.” A luta, como se vê, continua.

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, alertou recentemente: “Não está escrito na pedra que a ligação transatlântica durará para sempre”. Isso pode ser entendido mais como um incentivo a Berlim. Em todo caso, Stoltenberg alimenta a esperança ao se referir ao passado: “Já tivemos muitas diferenças de opinião na história da Otan, e sempre as superamos porque, no final, todos concordamos que a América do Norte e a Europa juntas são mais seguras”.

(Com DW)

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