OPOSIÇÃO DA VENEZUELA MOSTRA NOVA COESÃO

Desde que Juan Guaidó assumiu papel de liderança, partidos que se opõem a Maduro parecem ter formado uma nova frente unida em torno do objetivo de depor o presidente em exercício

Um dos motivos por que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, se manteve tanto tempo no poder na Venezuela é a desunião e fragmentação das forças oposicionistas no país. Foi muito vantajoso para Maduro no passado o fato de muitos políticos de oposição antes destacados estarem ou encarcerados, sob prisão domiciliar, exilados ou brigados entre si.

De repente, porém, tudo parece ser diferente. Com a ascensão inesperada do presidente do Parlamento Juan Guaidó a autoproclamado presidente interino, a oposição parece ter ressuscitado, como a fênix das cinzas.

O sociólogo Héctor Briceño, do Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela, vê como um sinal positivo o fato de Guaidó se apresentar como porta-voz único. “Isso mostra que a oposição superou as lutas e querelas internas dos anos 2016 e 2017, quando se mostrava muito mais polifônica e também contraditória.”

Apesar de ter apenas 35 anos e de sua breve carreira política, o deputado do partido de centro-esquerda Vontade Popular parece ter conseguido unir as forças oposicionistas. “Guaidó demonstra unidade, não fala só por si próprio”, afirma Briceño. “Cada discurso seu é antecedido por uma discussão interna entre as diversas partes da oposição, na qual são estabelecidas as diretrizes gerais.”

O cientista político venezuelano Jesús Azcargorta não se surpreende com o fato de Guaidó ter tamanho papel de liderança na oposição, ou com o fato de ser até mesmo visto por alguns como “salvador da pátria”. “Mas ele não está sozinho. Por trás dele estão muitas forças com interesses bem diversos.”

No entanto, o político conseguiu concentrar essas correntes, em parte divergentes, dentro da oposição em torno de uma meta decisiva: a deposição de Maduro e o restabelecimento da democracia.

A reorientação e reavaliação dentro da oposição venezuelana era mesmo urgentemente necessária. O fundador e chefe do Vontade Popular, Leopoldo López, está há 18 meses em prisão domiciliar. Em 2015 ele foi condenado a 13 anos de cárcere, acusado de incitação à violência.

Outra personalidade importante da oposição venezuelana é Henrique Capriles. Candidato à presidência por duas vezes, em abril de 2017 ele foi jogado para escanteio, quando o governo lhe comunicou que não poderia se candidatar por 15 anos.

O apoio público de Capriles a Guaidó foi um passo importante para a união da oposição, avalia Briceño. “Isso é especialmente notável, pois no passado Capriles não foi tão construtivo assim.”

Nesse meio tempo, parece ter se cristalizado uma distribuição de funções. O ex-presidente do Parlamento Julio Borges, atualmente no exílio, cuida das relações internacionais. Guaidó o nomeou embaixador para os países do Grupo de Lima.

A nova estratégia é colocar na frente um único líder da oposição, para assim demonstrar unidade. “Vemos aqui uma excelente cooperação de Guaidó com os outros líderes oposicionistas. Como representante do partido Vontade Popular, ele discute seu procedimento com o próprio chefe de partido, Leopoldo López, e também com Julio Borges, do Primeiro Justiça”, explica Briceño.

Segundo declarações dos líderes dos partidos oposicionistas, a meta principal é o afastamento de Maduro da presidência. O que virá depois e a partir de quando eles voltarão a competir entre si, será decidido no decorrer do processo de transição.

(Com DW)

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