O RECADO DAS URNAS CONTRA O POPULISMO E A CORRUPÇÃO NA ESLOVÁQUIA

Com plataforma anticorrupção, candidata progressista e pró-Europa vence primeiro turno de eleições presidenciais com grande vantagem em relação a adversário populista e pode se tornar a primeira mulher a governar o país

A crítica do governo, advogada ambientalista e liberal pró-Europa Zuzana Caputova garantiu neste fim de semana uma vaga no segundo turno das eleições presidenciais da Eslováquia, encaradas como um teste para o partido populista no poder.

Sem experiência em cargos públicos, Caputova, de 45 anos, foi a grande vencedora do primeiro turno, com 40,5% dos votos, ficando um passo mais perto de se tornar a primeira mulher presidente da Eslováquia.

No segundo turno, marcado para 30 de março, a candidata vai enfrentar Maros Sefcovic, do partido governista Smer, que ficou com 18,7%. De centro-esquerda e orientação nacionalista e populista, o Smer é liderado pelo ex-primeiro-ministro Robert Fico.

Para Caputova, sua clara vitória no primeiro turno demonstra a força da mensagem contra a corrupção destas eleições, marcadas pelo assassinato do jornalista Jan Kuciak, que investigava vínculos entre o crime organizado e as lideranças políticas eslovacas.

“A sociedade mandou a mensagem de que quer mudança”, afirmou Caputova depois da divulgação dos resultados parciais. “Esta eleição é resultado do descontentamento, da frustração e do estado da Justiça no país, um tema que considero muito importante”, completou a advogada, que até pouco tempo era uma completa desconhecida para a maior parte da população.

Vice-presidente do partido Eslováquia Progressista (PS, social-liberal), sem representação parlamentar, Caputova escolheu como slogan de campanha a frase: “Lutemos contra o mal”. Se eleita, ela protagonizará um momento que destoa da atual onda de ascensão de políticos nacionalistas e populistas vista em grande parte da Europa.

Em fevereiro do ano passado, a candidata participou dos protestos que reuniram dezenas de milhares de pessoas após o assassinato de Kuciak. O jornalista havia alertado a polícia de que tinha recebido ameaças e foi encontrado morto a tiros em sua casa junto com a noiva.

Após a morte de Kuciak, a Eslováquia, país de 5,4 milhões de habitantes, membro da União Europeia e da Otan, viveu uma série de manifestações antigoverno – as maiores desde os tempos comunistas.

O jornalista investigava atividades da máfia italiana na Eslováquia e supostos contatos dela com dois colaboradores próximos ao presidente. A morte provocou temores em relação à liberdade de imprensa e à corrupção no país. Fico foi forçado a renunciar ao cargo de primeiro-ministro após o escândalo, mas segue como líder do Smer e é um aliado próximo do atual premiê, Peter Pellegrini.

“Caputova tem uma vantagem tão ampla que Sefcovic teria que conquistar quase todos os eleitores dos demais candidatos, e isso é improvável”, afirma o analista Grigorij Meseznikov, de Bratislava. “Ao escolherem Caputova, as pessoas fizeram um forte apelo à mudança para melhor, de acordo com os valores da democracia liberal. Aqueles que querem continuidade e que o Smer permaneça no poder são claramente a minoria.”

Divorciada e mãe de dois, Caputova ganhou um prêmio por seu ativismo ambiental e por sua campanha bem-sucedida para impedir o estabelecimento de um aterro sanitário em sua cidade natal, Pezinok.

Ela também é conhecida por promover mais direitos para casais do mesmo sexo – algo que Sefcovic tenta usar em seu benefício perante a parcela mais conservadora da população.

“Eu quero me dirigir àqueles que insistem que a Eslováquia continue sendo um país cristão e não querem que as eleições sejam percebidas como um referendo sobre uma nova agenda superliberal que Caputova está promovendo”, disse o candidato durante um debate televisionado.

Uma pesquisa de opinião do instituto Focus aponta que Caputova deve conquistar 64% dos votos no segundo turno, contra 36% de Sefcovic.

“Espero que todos percebamos que temos esta mudança em nossas mãos e que não vamos deixá-la escapar”, afirmou o eleitor Lubomir Brecka à agência de notícias AFP.

(Com DW)

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