O que representa o referendo curdo de independência?

Curdos do Iraque foram às urnas nesta segunda-feira (25/09) em um referendo simbólico sobre a independência da região autônoma do Curdistão, no norte do país. Segundo a imprensa local, 78% dos 5,2 milhões de eleitores foram proferir seu voto. O resultado deve sair nos próximos dias.

“Você quer que o Curdistão e as áreas curdas fora da administração regional se tornem um Estado independente?”, questionou o referendo, ao qual os eleitores tiveram de responder “sim” ou “não”.

A oposição à independência dos curdos no Iraque é expressiva, tanto no país do Oriente Médio como internacionalmente. Contudo, se as marchas realizadas pelos curdos nos últimos dias foram um indício do nível de apoio, a maioria esmagadora deve ter votado a favor da independência.

De qualquer forma, levando em consideração que o referendo é apenas simbólico, permanece incerto se os curdos realmente estão perto de realizar o sonho de longa data que é criar seu próprio Estado.

Bandeira sem Estado

Os curdos são um dos maiores grupos étnicos do mundo sem um Estado próprio. Estima-se que 35 milhões de curdos estejam espalhados pela Turquia, Iraque, Irã e Síria. Embora haja muitas divergências internas entre eles devido a disputas entre diferentes clãs e partidos políticos, o nacionalismo fervoroso prevalece sobre essas linhas de divisão e as fronteiras nacionais.

No norte do Iraque, as cores da bandeira do Curdistão – vermelha, branca e verde – estão em toda parte – de edifícios públicos e privados a estabelecimentos comerciais, restaurantes e veículos. Antes do referendo, uma grande onda de apoio à causa tomou a região.

O líder do governo regional curdo no Iraque, Masoud Barzani, explicou que, por mais que uma vitória do “sim” não resulte automaticamente em uma declaração de independência, já que não é um referendo vinculativo, ela marcaria o início de negociações sérias com o governo em Bagdá.

Curdos levantam sua bandeira em protesto a favor do referendo, em 16 de setembroCurdos levantam sua bandeira em protesto a favor do referendo, em 16 de setembro

Governo disfuncional em Bagdá

A votação coloca dúvidas sobre a integridade territorial do Iraque. No entanto, trata-se mais de uma formalidade por escrito do que da realidade iraquiana, uma vez que o país está dividido em grupos religiosos e étnicos.

“Na minha opinião, o governo central em Bagdá é extremamente disfuncional e não está fortemente posicionado como um centro de controle abrangente”, afirma Carina Schlüsing, colaboradora da organização Bonn International Center for Conversion (BICC), após visitar o norte do Iraque. O órgão independente, sediado em Bonn, no oeste da Alemanha, faz pesquisas sobre paz e conflitos.

Desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991, os territórios curdos no norte do Iraque gozavam de ampla autonomia. Segundo o pesquisador Markus Rudolf, também do BICC, no último quarto de século os curdos iraquianos alcançaram uma independência “política, econômica e cultural”, como “com a segurança de suas fronteiras externas e seu poder de decidir quem pode entrar no país”.

O especialista em assuntos curdos Ferhad Seyder, da Universidade de Erfurt, lembra que duas gerações já cresceram sem a língua árabe nas regiões curdas. Isso leva os pesquisadores a acreditarem que “os árabes e os curdos não têm nada em comum”, afirma Seyder.

Apesar de tudo isso, o governo iraquiano se opõe firmemente ao referendo. Em 18 de setembro passado, a Suprema Corte de Bagdá ordenou a suspensão da votação. Dois dias antes, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, sugeriu que o país estava preparado para intervir militarmente caso o referendo levasse à violência.

O governo em Bagdá está particularmente enfurecido com a realização do referendo, que aconteceu não só na região autônoma do Curdistão, mas também em áreas contestadas, como a da província de Kirkuk, rica em petróleo e atualmente controlada pelos peshmergas curdos.

Irak Kurden stimmen über Unabhängigkeit ab (Getty Images/C. McGrath)Comparecimento às urnas nesta segunda-feira foi expressivo, segundo a imprensa local

Oposição internacional

Em um âmbito internacional, até mesmo países com diferentes pontos de vista, como Estados Unidos, Alemanha, Irã e Arábia Saudita, se opõem aos desejos curdos de independência. Todos concordaram em pressionar os líderes curdos para que a votação fosse adiada, sem sucesso.

O governo iraniano chegou a advertir que “atos ilegais separatistas” no Iraque poderiam desestabilizar a região. Teerã só reconhece um “Iraque integrado e federal”.

A Turquia, onde quase uma em cada quatro pessoas possui ascendência curda, é outro país que se incomoda com uma possível independência. Ancara teme que os cerca de 20 milhões de curdos que vivem no país possam se sentir validados pela aspiração de autonomia vinda do Iraque.

Ao menos 2 mil pessoas foram mortas desde 2015 durante as operações militares turcas em regiões curdas – fato que não ajudou a aproximar os curdos do governo em Ancara. Além disso, entre 1984 e 2013, 40 mil pessoas morreram em confrontos entre o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado um grupo terrorista pela Turquia, e o exército turco.

Em 16 de setembro passado, o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, descreveu o referendo de independência como uma “questão de segurança nacional da Turquia”. No dia seguinte, o exército do país deu início a uma operação na fronteira com o Iraque, que deve durar até esta terça-feira. Cerca de 100 tanques e veículos transportando mísseis e artilharia pesada foram deslocados.

Segundo a agência de notícias turca Anadolu, o presidente Recep Tayyip Erdogan estaria considerando sanções contra a região curda no norte. Trata-se de uma ameaça poderosa, já que os curdos exportam grande parte de seu petróleo passando por território turco.

Nesta segunda-feira, após o fechamento das urnas no Iraque, as Nações Unidas alertaram que o referendo de independência poderia causar efeitos “potencialmente desestabilizadores”. “Todas as questões pendentes entre o governo federal e o governo regional do Curdistão devem ser resolvidos através de um diálogo estruturado e do compromisso construtivo”, afirmou a ONU em nota.

Com DW

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