O que Israel busca na América Latina?

O premiê Benjamin Netanyahu realizou na semana passada a primeira visita oficial de um chefe de governo israelense à América Latina. Seu giro incluiu Argentina, Colômbia e México. O ineditismo do roteiro trouxe à esfera pública uma estratégia que vem sendo desenvolvida silenciosamente pela diplomacia, pelas empresas e pelas corporações do lobby israelense: a busca por consolidar nosso continente como um importante polo comercial e político para um país cada vez mais desmascarado em sua empreitada genocida contra o povo palestino.

Israel tem razão em se preocupar. Em 9 de julho de 2004 a Corte Internacional de Justiça emitiu uma decisão condenando a construção do imenso muro que transforma a Cisjordânia numa verdadeira prisão a céu aberto. A medida também confirmou a ilegalidade de qualquer assistência da comunidade internacional às violações praticadas por Israel contra o povo palestino.

Um ano depois, a sociedade civil palestina lançou um chamado ao Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS)  contra Israel como ferramenta de resistência pacífica às políticas de colonização ilegal de territórios e de apartheid implementadas por aquele Estado. Trata-se de uma tática bastante similar à adotada contra o regime sul-africano do apartheid nos anos 1980 – que envolveu o mundo inteiro numa onda de solidariedade.

O boicote é ferramenta de resistência pacífica às políticas de colonização ilegal de territórios e de apartheid implementadas por aquele Estado. Foto: Wikicommons

Israel controla as fronteiras dos territórios palestinos ocupados. Mantém a Faixa de Gaza em cerco permanente desde 2007, bloqueando a circulação de pessoas e mercadorias. Os escandalosos postos de controle – checkpoints – são atentados ao mais elementar direito de ir e vir dos palestinos. A política de colonização dos territórios ocupados promove uma verdadeira limpeza étnica na Palestina. Sem falar nas mais de 50 leis que segregam cidadãos árabes e palestinos no território israelense.

Tudo isso fez com que a sociedade palestina conclamasse o mundo a caracterizar o regime israelense como um regime de apartheid – adotando, portanto, a mesma conduta levada adiante contra o apartheid sul-africano. Em seu manifesto, o movimento BDS estabelece três objetivos a serem alcançados:

1) O fim da ocupação e da colonização de todas as terras árabes e a demolição da muralha que transforma a Cisjordânia em uma verdadeira prisão a céu aberto, assim como o desmantelamento de todos os assentamentos judeus em território ocupado.

2) O reconhecimento do direito fundamental dos palestinos e palestinas cidadãos de Israel à igualdade completa em relação à população judia.

3) A garantia do direito de retorno aos refugiados palestinos, como estipula a resolução 194 da ONU.

Porém, a luta palestina é muito mais dura, pois Israel não é uma nação africana. Este Estado artificialmente estabelecido e fundado nas bases de uma ideologia colonialista – o sionismo –  opera como um enclave estratégico para o imperialismo. Um posto avançado de contenção das lutas dos povos árabes no mundo inteiro, altamente militarizado e dotado de um devastador arsenal nuclear.

Europa identifica produtos oriundos de assentamentos ilegais

Se é verdade que o mundo não se voltou contra o apartheid isralenese com a mesma força que combateu o apartheid sul-africano, também é verdade que de 2005 até hoje importantes avanços foram conquistados pelo movimento BDS.

Liderança histórica da luta contra o apartheid sul-africano, o bispo Desmond Tutu é uma voz incansável pelo boicote a Israel:

Eu sei por experiência própria que Israel estabeleceu uma realidade de apartheid dentro de suas fronteiras e através da ocupação dos territórios palestinos. O paralelo com a minha amada África do Sul é dolorosamente certeiro

O próprio partido de Nelson Mandela, o Congresso Nacional Africano, declarou em 2012 o apoio ao movimento BDS.

Na Europa e nos Estados Unidos, Israel já tem sentido o peso do chamado ao boicote contra suas empresas, suas universidades e todos os seus parceiros na empreitada colonialista desenvolvida nos territórios ocupados. Por isso busca na América Latina um mercado supostamente menos suscetível ao movimento BDS – embora também tenhamos aqui algumas vitórias a celebrar.

Federica Mogherini, responsável pela diplomacia da União Europeia, declarou publicamente que os cidadãos europeus têm o direito de levar adiante as ações de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel. Uma posição que foi forçada a reconhecer como de acordo com as normas e políticas do bloco, embora oficialmente a União Europeia condene o movimento BDS.

Diversas instituições europeias já aderiram à causa. No Reino Unido, a União Nacional dos Estudantes e o Sindicato Nacional dos Professores – maior entidade de educadores de toda União Europeia – se somam ao movimento.

Fundos de pensão de Luxemburgo e da Noruega já excluíram de suas listas de investimentos corporações israelenses associadas à construção de assentamentos ilegais na Cisjordânia.

A União Europeia identifica os produtos que são produzidos nestes assentamentos, declarados ilegais pelo Conselho de Segurança da ONU. Em vez da etiqueta “Made in Israel” ou “Produzido em Israel”, os bens devem revelar que foram feitos em territórios ocupados. A medida é coerente com a posição do bloco de não reconhecer os territórios ocupados como parte do Estado soberano de Israel.

O Escritório Central de Estatísticas de Israel anunciou em junho de 2015 que a economia do país sofreu um prejuízo de US$ 6 bilhões em 2013 e em 2014 como resultado do boicote europeu a produtos agrícolas fabricados nos assentamentos.

Entidades norte-americanas apoiam o boicote

Protesto em Washington DC em frente à Casa Branca, nos Estados Unidos, pede boicote a Israel. Foto: Flickr/Stephen Melkisethian

Nos Estados Unidos a Associação de Estudos Americanos se juntou às fileiras do BDS em dezembro de 2013. É importante ressaltar que neste país o movimento tem obtido sucesso em diversas ações que apelam a entidades religiosas ligadas às igrejas cristãs, cujas associações têm estado na linha de frente da defesa do boicote a Israel.

A Associação dos Antropólogos Americanos também votou por apoiar o BDS, assim como mais de 300 acadêmicos britânicos de 72 universidades, que lançaram uma petição convocando o boicote a Israel.

No Canadá, em abril de 2015 a Confederação Nacional dos Sindicatos em Quebec – que representa 325 mil pessoas em cerca de 2 mil organizações – se somou oficialmente ao movimento BDS.

Em 2012, o relator especial da ONU Richard Falk recomendou ao Conselho de Direitos Humanos o boicote às empresas que lucram com os assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia. Ele listou uma série de corporações, entre elas as americanas Caterpillar Inc., Hewlett Packard e Motorola, a israelense Elbit Systems e o sueco Grupo Volvo.

O movimento BDS também possui apoio dentro da sociedade israelense. Em 2014, o grupo internacional Judeus e Palestinos pelo Direito de Retorno apoiou a decisão da Associação de Estudos Americanos de aderir ao boicote. A organização Boicote de Dentro é uma entidade israelense de defesa do BDS.

Boicote cultural coloca artistas na linha de frente da solidariedade à Palestina

O boicote cultural é outro braço importante e muito bem sucedido do movimento BDS. Artistas do mundo inteiro se somam ao apelo para que personalidades da cultura não emprestem seu talento e prestígio à máquina de propaganda do regime israelense.

Personalidades como a filósofa feminista Judith Butler, a escritora Naomi Klein, o escritor uruguaio Eduardo Galeano e o filósofo Slavoj Zizek já aderiram ao chamado.

Grupos musicais de diversos países cancelaram seus shows em Israel e deram contundentes declarações a respeito das violações cometidas pelo país, como as bandas Pixies e Gorillaz, o guitarrista Carlos Santana, o cantor Devendra Banhart, as cantoras Cat Power e Lauryn Hill, o vocalista da banda Massive Attack, Robert Del Naja, e o ícone punk Jello Biafra.

Os atores Dustin Hoffman e Meg Ryan se recusaram a participar de um festival de cinema de Israel em 2010.

Na linha de frente desta mobilização está Roger Waters, um dos fundadores do grupo Pink Floyd, que mobiliza outros artistas para esta causa.

Em fevereiro deste ano, o campeão do Super Bowl nos Estados Unidos, Michael Bennet, cancelou uma viagem em que desempenharia a função de embaixador da boa vontade em Israel. “Não serei usado desta forma. Quando eu for a Israel – e pretendo ir – será não apenas para visitar Israel, mas também a Cisjordânia e Gaza, para que eu possa ver como os palestinos vivem suas vidas”, disse.

O regime de apartheid tenta passar ao mundo uma imagem de que seria uma democracia progressista em uma região supostamente dominada pela intolerância. pinkwatchingisrael.com/Divulgação

Também a luta da população LGBT encontra seu lugar na causa palestina, na medida em que é instrumentalizada por Israel como arma em uma guerra de relações públicas. O regime de apartheid tenta passar ao mundo uma imagem de que seria uma democracia progressista em uma região supostamente dominada pela intolerância.

Uma tese que desmorona diante de qualquer análise mais profunda. Sobre este tema – que, enquanto ativista LGBT, considero fundamental para que se compreenda o potencial revolucionário desta conexão entre causas aparentemente tão distantes – recomendo a leitura de outros dois artigos que já publiquei no site Vós: “Precisamos falar sobre Pinkwashing” e “Por que devemos boicotar o Festival Internacional de Cinema LBGT de Tel Aviv”.

América Latina no centro da disputa pela causa palestina

Diante deste cenário, é natural que Israel mire na América Latina para expandir parcerias e negócios que já não são bem recebidos em outras regiões. Acontece que também aqui se trava uma forte luta de apoio ao movimento BDS.

No Brasil, a política dos governos do PT em relação à causa palestina sempre se deu muito mais no campo da retórica do que das ações. Os governos Lula e Dilma adotaram um discurso forte a respeito das violações praticadas por Israel contra o povo palestino. Contudo, no campo comercial – sobretudo no que tange às parcerias militares – as relações permaneceram inalteradas. O Brasil seguiu financiando o apartheid israelense e importando tecnologia de segurança testada nos corpos palestinos.

É evidente que com Temer o cenário se deteriorou de vez. Agora sequer as condenações políticas às atrocidades existem. O país está tão fragilizado e apagado no cenário internacional que o primeiro-ministro israelense nem se deu ao trabalho de incluir o país em seu roteiro pela América Latina. Isso não significa, é claro, que seus diplomatas e lobbistas não estejam operando em nome dos interesses israelenses no país.

O Brasil seguiu financiando o apartheid israelense e importando tecnologia de segurança testada nos corpos palestinos. Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Em 2014 o movimento BDS obteve uma importante vitória após o governo gaúcho cancelar um memorando de entendimento firmando com a Elbit Systems para o suposto estabelecimento de um polo aeroespacial no estado. Como se para isso fosse necessário recorrer à tecnologia de segurança israelense, tantas vezes aprimorada pelo uso frequente contra o povo palestino.

Neste momento, um dos eixos do movimento BDS na América Latina é a campanha para que a Cemex deixe de atuar em Israel. A gigante mexicana do setor de construção civil foi uma das empresas citadas no relatório de Richard Falk à ONU. A corporação atua diretamente na construção dos assentamentos na Cisjordânia e no muro do apartheid, lucrando com a segregação do povo palestino.

A Cemex, através da subsidiária Readymix, tem plantas espalhadas em diversos assentamentos israelenses ilegais, como Mevo Horon, Atarot e Mishor Edomim, na Cisjordânia ocupada. A empresa produz cimento e concreto que são utilizados na construção das colônias, das barreiras militares e no muro do apartheid.

Em julho, movimentos que apoiam o BDS em toda a América Latina realizaram uma semana de ação contra a Cemex. Agora, em 9 de novembro, haverá um Dia de Ação Global por um Mundo Sem Muros.

A data não foi escolhida ao acaso. Em 9 de novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim. E em 9 de novembro de 2016 Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, tendo como eixo de sua campanha racista e xenófoba a construção de um muro na fronteira com o México.

A aliança entre a causa palestina e as lutas latino-americanas gera uma forte onda de solidariedade entre duas regiões do mundo que conhecem de perto as atrocidades do imperialismo e do colonialismo. Quando penso na potência desta união, lembro sempre de uma frase da escritora e ativista indiana Arundhati Roy, dita em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial de 2003. “Um outro mundo não apenas é possível, como já está a caminho. Em um dia tranquilo, eu posso ouvir sua respiração”.

 

Com Sul 21

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