O que está acontecendo com a América Latina?

Do Brasil vem o exemplo mais eloquente. Dilma Rousseff ganhou a eleição em 2014 e foi deposta sem poder cumprir sequer metade do seu mandato por conta de uma intensa mobilização nas ruas habilmente inflada por uma mídia que faz papel de partido político e por um congresso extremamente hostil a ela. O impeachment de Dilma foi baseado num artifício contábil que, em outros tempos, não seria capaz de retirar da cadeira um prefeito de uma pequena cidade do interior.

Na Argentina, o ressurgimento do neoliberalismo veio por meio de uma vitória eleitoral, apertada é certo, mas uma vitória nas urnas, o que confere legitimidade ao presidente Mauricio Macri, embora não represente carta branca para fazer o que ele quiser como bem tem mostrado as gigantescas manifestações da oposição nas ruas portenhas.

Outro gigante latino-americano, o México, tem feito bem a lição de casa nos últimos anos, aprofundando a relação de dependência com os Estados Unidos e trazendo como resultado um empobrecimento ainda maior da população e níveis alarmantes de violência. Apesar do acordo comercial que confere ao país a condição de mão de obra barata através das fábricas “maquiladoras”, o presidente Donald Trump passou a olhar o território mexicano apenas pelo viés da imigração ilegal, a ponto de propor a construção de um muro na fronteira. Um absurdo estético e uma violência contra a dignidade de uma nação soberana. A medida surge exatamente na época que Peña Nieto amarga baixos índices de popularidade porque pouco resultado tem apresentado para alterar a condição sofrida de milhões de mexicanos. Seu governo tende a acabar num ostracismo semelhante ao de François Hollande.


Acordo de paz entre o governo de Juan Manuel Santos e as Farc
Pela direita, a Colômbia acaba de fazer um complexo acordo de paz e é preciso aguardar os efeitos reais do fim de um conflito que durou mais de 60 anos. A tendência é de manutenção da tensão política porque ainda está fresca na memória do país as atrocidades cometidas pelos grupos paramilitares quando, em meados da década de 1980, a esquerda decidiu participar legalmente do jogo democrático e mais de cinco mil militantes foram mortos, entre eles dois potenciais candidatos à Presidência. A vitória do “não” no plebiscito sobre o acordo de paz acendeu o sinal amarelo e colocou em xeque o governo conservador de Juan Manuel Santos que, mesmo assim, seguiu buscando uma saída pacífica com a guerrilha que será efetivamente testada nos próximos meses.

Por fim, a Venezuela segue em compasso de espera numa crise de alto impacto que parece infindável. Num cenário de profundo acirramento entre governo e oposição, com manifestações de massa de lado a lado, nenhum dos jogadores teve condições de dar xeque-mate e liquidar a partida. A proposta do governo de convocar uma Assembleia Constituinte não garante a reversão do atual quadro de conflito. A liderança de Nicolás Maduro está ancorada em setores populares já não tão amplos como antes e nas Forças Armadas Bolivarianas, cujo papel tem sido decisivo para dissuadir a oposição de um ataque mais frontal contra o Palácio de Miraflores.


Manifestação com focos de violência na Venezuela
Mas, até que ponto a lealdade do alto comando se manterá intacta diante de uma situação econômica caótica e do mal estar social? Um movimento militar em qualquer direção poderá alterar o cenário seja aprofundando a repressão contra a oposição seja mexendo no tabuleiro do próprio governo, o que permitiria aos militares assumirem o controle do país, o que não deixaria de ser um retrocesso para a democracia mesmo que baseado em princípios distintos das quarteladas tradicionais.

De um jeito ou de outro, a América Latina está vivendo um período dramático porque na condição de exportadora de matérias primas sem valor agregado seus principais países seguem fora do jogo do desenvolvimento autônomo e soberano numa conjuntura de rearranjo do capital financeiro internacional. A respiração de governos progressistas anda fraca. Não chega a sobreviver por aparelhos, mas as experiências populares no Uruguai, Bolívia, Equador, Nicarágua, El Salvador e Cuba não são suficientes para alterar a correlação de forças políticas.

Será preciso que, no interior dos países gigantes, a reação popular ao neoliberalismo se intensifique em modalidades de luta próprias e adequadas a cada realidade. Para isso, é preciso construir, a partir de cada situação, modelos econômicos mais arrojados do que as experiências progressistas que marcaram a década passada. Sem a inclusão das massas empobrecidas num processo de consciência política mais crítico e transformador, dificilmente as forças democráticas e populares conseguirão superar a narrativa de que o neoliberalismo dessa vez voltou para ficar.

 

Com Opera Mundi

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