O Mercosul de Macri e Temer e a continuidade do atraso

Um museu de grandes novidades. O paradoxo no verso de Cazuza cabe sob medida para ilustrar o clima da última cúpula do Mercosul. “O Mercosul é o que fazemos dele. Revitalizar o Mercosul, como fez Vossa Excelência, tem sido possível porque vivemos, em cada um de nossos países, momentos modernizadores.” A frase é de Michel Temer dirigida a seu congênere argentino, Mauricio Macri, em discurso na 50ª Cúpula do Mercosul realizada no último dia 21 de julho em Mendoza, Argentina.

A história de nossa região nos mostra que o sentido desses “momentos modernizadores” quase sempre significou a adoção de medidas políticas, econômicas e sociais que precarizaram as condições de vida em nossos países – principalmente dos mais pobres – e priorizaram as novas necessidades e interesses do capital financeiro internacional e das burguesias a ele alinhadas facilitando sua atuação em nosso continente. Nada mais antigo que o moderno.

A década de 1990 foi um desses “momentos modernizadores”: abertura dos mercados internos, Estado-mínimo para as demandas sociais e máximo para o capital financeiro, livre-comércio e inserção associada na economia globalizada foram ideias-chave no período de reformas neoliberais de todas as ordens.

Os nefastos resultados sociais e econômicos sob a égide do Consenso de Washington são de conhecimento amplo. Com a devida atualização de termos e momento, cuja síntese pode ser lida na defesa das elites “nacionais” da ideia de “inserção nas cadeias de valores globais”, o retorno da agenda desse período e da função da integração regional como mera indutora do livre-comércio deu o tom da última cúpula do Mercosul. Modernização esta que, como deduziam nossos antigos clássicos, cheira à continuidade do atraso.

Uma breve conferida no conteúdo do “Comunicado Conjunto dos Estados Parte do Mercosul” deixa evidente a retomada do bloco a partir de seus objetivos meramente comerciais. Tal percepção parece ignorar os 25 anos de transformações que resultaram no que de fato o Mercosul  tornou-se: mais do que apenas um bloco comercial é uma referência de integração a partir de políticas de fortalecimento regional no plano social, político e cultural.

As pautas do Mercosul envolvem dentre outras questões a consideração solidária das assimetrias internas e externas nas negociações comerciais e seus impactos para o desenvolvimento econômico e social. Premissa que induz a uma leitura do comércio a partir das relações desiguais instituídas ao longo da história entre os países, dado seu poder comercial, com ênfase para os determinismos econômicos da era neoliberal.

A ampliação das dimensões social, política e cidadã do bloco na última década é resultado do trabalho árduo e contínuo das burocracias mercosulinas como o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), o Instituto Social Mercosul, o Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos, as Cúpulas Sociais e outros organismos intrabloco que possibilitaram o desenvolvimento de questões em âmbito regional, como a formulação das diretrizes de política de gênero e igualdade do Mercosul, reuniões especializadas como a Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar (REAF), o setor Educativo do Mercosul e outros temas que não podem ser minimizados ou mesmo ignorados no entendimento de sua função. Reduzir o Mercosul ao seu papel comercial reforça o desenvolvimento desigual e combinado inerente ao protagonismo do imperialismo no continente.

A estagnação do bloco, tão propagada pelas direitas ultraliberalizantes dos nossos países, é uma falsa ideia que tenta frear as possibilidades de uma integração que envolva elementos além da liberalização comercial padrão. Nesse sentido, é interessante comparar a “Declaração sobre o relacionamento externo do Mercosul”, da penúltima cúpula do bloco realizada em dezembro de 2015, em Assunção, com os documentos de Mendoza.

As aproximações com a Aliança do Pacífico, o TLC com a União Europeia e com outros países aparecem não como destino fatalista de vida ou morte do bloco, mas são ponderados os benefícios que irão ou não trazer para as economias nacionais, a criação de empregos, melhores condições de trabalho, o aumento da produção regional e das capacidades de concorrência preservando os direitos dos trabalhadores.

Soa irônico, mas é apenas trágico que quase um ano e meio após tal declaração estejamos sofrendo em nossos países processos de desmontes dos nossos direitos sociais. Ditos desmontes parecem reforçar a quem pertence a América do Sul: aos donos do capital seja por coerção ou por consenso.

A plena vigência das instituições democráticas e o respeito aos Direitos Humanos foi outro tema presente na Cúpula em razão do afastamento da Venezuela e os eventos ocorridos nesse país. Os Estados membros e associados do Mercosul, com exceção da Bolívia, produziram uma nota onde clamam pelo fim da violência, liberação de presos políticos, restabelecimento da ordem institucional, a vigência do Estado de Direito e a separação de poderes no marco do respeito aos Direitos Humanos e das garantias constitucionais.

A condenação ao governo de Nicolás Maduro teve tom abaixo do que os governos Macri e Temer desejavam, graças à intervenção do governo uruguaio. Em uma inversão do sentido real das coisas transformam o que é democrático em discurso sobre ditadura e o que é tirano – o poder do capital – em representação da democracia.

O Mercosul ao isolar a Venezuela abdicou de sua condição de ator protagonista na resolução do conflito e fortaleceu o ataque a um governo legitimamente eleito. Além disso, a diplomacia da arrogância dos governos brasileiro, argentino e paraguaio deixaram nossa região sujeita a intervenções externas que colocam em risco a frágil autonomia regional conquistada na última década.

Não menos importante, a reunião também marca a entrada do governo brasileiro na presidência pro-tempore do bloco. Contraditoriamente, se levarmos em conta os critérios utilizados na condenação da Venezuela: plena vigência das instituições democráticas e o respeito aos Direitos Humanos, o Brasil vai exercer tal função.

O governo Temer recebeu em maio de 2017 recomendações do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para o respeito ao pleno exercício dos Direitos Humanos nos marcos do Estado Democrático de Direito no país.

A chancelaria golpista foi rápida na resposta, questionou a validade das recomendações num afã desesperado e vexatório em desqualificar tais organismos. Nesse quadro, a atual diretriz conservadora da política externa brasileira compromete os avanços das últimas décadas do Mercosul.

A máxima de Temer é verdadeira, o Mercosul é o que fazemos dele. Cabe a nós defendermos as conquistas sociais e cidadãs do bloco dos oportunismos de plantão, para avançarmos rumo a uma integração sustentada na soberania nacional, democracia popular e na construção de processos de redução das históricas assimetrias entre os países membros.

*Karen Honório é professora do curso de Relações Internacionais e Integração da Unila e membro do GR-RI; Roberta Traspadini é professora do curso de Relações Internacionais e Integração da Unila e professora colaboradora do Programa de Pós Graduação em Serviço Social da UFSC

 

Com Carta Capital

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