O longo caminho rumo ao próximo governo Merkel

Fragilizada pelas perdas na eleição de domingo (25/09), a chanceler federal alemã, Angela Merkel, terá que explorar novos territórios em seu quarto mandato, negociando uma coalizão de governo com o Partido Verde e o Partido Liberal-Democrático (FDP) – algo que pode durar meses.

O partido de Merkel, a União Democrata Cristã (CDU), teve 33% dos votos, o pior resultado eleitoral desde 1949. Os eleitores alemães também puniram o Partido Social-Democrata (SPD), parceiro de coalizão de Merkel, que acabou recebendo sua menor votação proporcional do pós-guerra e anunciou que voltará à oposição.

Com isso, a Alemanha está a caminho de uma formação inédita de governo: a chamada coalizão “Jamaica”, uma alusão à semelhança entre as cores dos partidos União Democrata Cristã (CDU), FDP e Verde, e a bandeira do país caribenho.

Embora em nível estadual já tenha existido e existam alianças “preto-amarelo-verde”, em nível federal, ela seria uma novidade. A coalizão composta em meados do ano no estado de Schleswig- Holstein ainda é muito recente para que se tomem conclusões de sua estabilidade.

A primeira aliança desse tipo na Alemanha foi formada em 2009 no pequeno estado do Sarre, mas ela desmoronou dois anos depois, no início de 2012. Não foram as diferenças de opinião entre os três partidos que provocaram seu término, mas as brigas internas entre os liberais, que levaram a governadora Annegret Kramp-Karrenbauer, da CDU, a anunciar o fim da coalizão.

Desde maio de 2017, a CDU governa o Sarre, tendo o SPD como parceiro menor. Em Berlim, essa é uma constelação com a qual Merkel já está familiarizada. Mas a chefe de governo alemã ainda não vivenciou as vantagens e desvantagens da chamada coalizão “Jamaica”. Isso também vale para o atual governador de Schleswig-Holstein, Daniel Günther, da CDU, embora ele já tenha três meses de experiência em tal governo.

E quanto à disposição dos potenciais parceiros de coalizão em nível federal? Depois de 12 anos à frente da chancelaria federal em Berlim, Angela Merkel ganhou a reputação de uma governante moderada. Seus apoiadores veem nisso uma virtude; seus opositores, falta de perfil.

Para negociar a formação de uma coalizão “Jamaica”, essa capacidade de adaptação de Merkel pode vir, no entanto, a ser útil. É um segredo aberto o fato de haver reservas quanto a essa aliança, tanto no seu partido, a CDU, quanto na legenda-irmã bávara, a União Social Cristã (CSU).

Obstáculos e possível guinada à direita

Não se pode reconhecer, nem de longe, alguém que possa questionar a autoridade da chanceler federal. Após os maus resultados que a CSU obteve na Baviera, isso vale mais do que nunca para o governador e presidente do partido, Horst Seehofer.

Eleitor alemão tem dois votos

Mesmo assim, deve-se contar com ataques do estado no sul da Alemanha. Diante das próprias perdas e do sucesso da legenda populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Seehofer já anunciara na noite anterior querer mostrar posições claras mais à direita.

No entanto, declarações fortes em matéria de política de segurança e de refugiados deverão ter um impacto negativo na disposição de conversa e negociação por parte do FDP e do Partido Verde. Principalmente para o partido ambientalista, será difícil transmitir à sua base temas como o endurecimento do direito de refúgio.

Por outro lado, deverá ser mais fácil para todas as partes envolvidas chegar a um acordo sobre o combate ao terrorismo. Mais pessoal e melhores equipamentos principalmente para a polícia – são pontos com que os possíveis parceiros de coalizão concordam.

No geral, a União CDU/CSU terá que fazer muitas concessões. Novas restrições dos direitos civis e de liberdade são difíceis de imaginar para FDP e Partido Verde. Por outro lado, os dois partidos menores deverão agora dar grandes passos com vista a uma aproximação.

Merkel e Schulz se pronunciam sobre o resultado das eleições

Os liberais, que passaram quatro anos afastados do Parlamento, acusam regularmente os verdes de paternalismo.  Aos olhos do Partido Verde, por sua vez, o FDP representa principalmente o Estado mínimo, que privilegia os interesses econômicos em detrimento do interesse público.

Tanto no que diz respeito ao seu programa quanto à sua cultura partidária, ambas as legendas terão que fazer bastante trabalho interno de persuasão, caso venha a se formar a chamada coalizão “Jamaica”.

Nesse ponto, os políticos com maior experiência deverão exercer um papel importante dentro de suas próprias fileiras. Entre os verdes, quem se destaca é o governador de Baden-Württemberg, Winfried Kretschmann, que administra seu estado estruturalmente conservador e economicamente próspero em coalizão com a CDU. Em nível federal, no entanto, o político de 69 anos terá que se ajustar às críticas da ala esquerda do Partido Verde.

Sob a sombra de novas eleições

O equivalente de Kretschmann no FDP é o vice-presidente da legenda, Wolfgang Kubicki. O político de 65 anos levou o seu partido à coalizão “Jamaica” que está à frente do governo de Schleswig-Holstein desde o final de junho.

Embora Kubicki considere ser possível o estabelecimento desse modelo em nível estadual, ele também não vê isso como algo obrigatório. Na noite da eleição, o vice-presidente do FDP criticou a decisão dos social-democratas de passar para a oposição. Ele deve estar ciente da pressão sobre o FDP com vista a não recusar uma coalizão “jamaicana”.

Esse sentimento, no entanto, deverá atingir todos os potenciais parceiros de aliança. Depois de um período catastrófico para o partido em duas grandes coalizões junto a Merkel, a opinião pública é a primeira a perdoar o SPD por sua decisão de se recusar a participar da formação de um novo governo.

Já a CDU/CSU, FDP e Partido Verde vão ter que chegar a um acordo, pois, caso contrário, paira a ameaça de novas eleições. Possivelmente, isso seria motivo de alegria somente para a legenda populista de direita AfD, que terá de enfrentar a oposição de todos os outros partidos, inclusive de A Esquerda, no futuro Bundestag.

Com DW

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