“MERKEL SUBESTIMOU RISCOS DA MIGRAÇÃO”, DIZ SALVINI

Em entrevista à DW, ministro italiano diz que governo alemão subestimou perigo de conflitos sociais ao abrir fronteiras para centenas de milhares de migrantes. Ele vê ascensão da AfD como resposta

O ministro do Interior e vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, afirmou em entrevista à DW que a chanceler federal alemã, Angela Merkel, subestimou o risco de conflitos sociais ao afirmar que haveria espaço para centenas de milhares de migrantes na Alemanha.

“A ascensão da AfD é uma clara reação a isso. Essa é a resposta que muitos alemães insatisfeitos tentam dar”, observou Salvini, que foi entrevista às margens de um evento partidário em Bergamo, na Itália.

O líder da Liga, que forma a coalizão de governo italiana com o partido antissistema Movimento 5 Estrelas defendeu ainda sua aproximação com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Órban, que é contra uma redistribuição dos refugiados que chegam à Itália entre outros países europeus. “Eu tento retirar o melhor de todos os lados”, afirmou.

DW: O senhor está no cargo há quase cem dias com seu novo governo. O senhor considera que abordou os problemas mais prementes da Itália, como a pobreza e o desemprego?

Matteo Salvini: Estou muito satisfeito com os primeiros cem dias de governo. Minha área de atuação abrange segurança, imigração e ordem pública. Conseguimos resultados extraordinários.

No que tange a emprego, impostos e aposentadorias, iremos apresentar no segundo semestre o nosso plano com um novo direcionamento, com a mudança, com o crescimento. É por isso que não estou preocupado com os números desta fase. Já estamos trabalhando no crescimento, que deve voltar a subir.

Os mercados internacionais parecem bastante céticos. Desde que a Liga e o Movimento Cinco Estrelas assumiram o poder, o famoso spread, o prêmio de risco para títulos do governo italiano, dobrou. Como o senhor explica isso?

Há pessoas especulando. Há também pessoas que estão contra nós. O nosso governo é livre e independente das empresas multinacionais, de grandes investidores ou do poder dos bancos – tanto internacionalmente quanto em nível europeu. Nós tememos nada. A economia italiana é saudável. As empresas italianas são saudáveis. As reformas econômicas responderão a todas as questões que os chamados mercados e deuses do spread possam ter.

Pouco se nota a presença do primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte. O senhor é muito mais presente do que ele. O senhor se sente como o verdadeiro chefe de governo?

Não, nós dois temos personalidades diferentes. Ele é um homem que busca o equilíbrio e procura ouvir. Ele visitou Donald Trump. Ele irá para a China. Ele participa de cúpulas europeias.

Eu e Luigi Di Maio [líder do Movimento 5 Estrelas] somos vice-primeiros-ministros. Nós somos líderes partidários. Portanto, é claro que, devido às nossas personalidades e aos nossos papéis, tendemos a estar mais presentes, mas formamos uma boa equipe.

Vamos falar sobre União Europeia e migração. O senhor parece estar em conflito com a UE em alguns aspectos. O senhor almeja a cooperação ou o confronto?

Embora eu seja geralmente descrito como um hooligan, eu sempre tento argumentar, discutir e perguntar. Por exemplo, na reforma da Convenção de Dublin e da Operação Sophia, estamos fazendo sugestões. Esperamos, sugerimos.

É claro que eu tinha que parar com a chegada de migrantes. No ano passado, 100 mil pessoas chegaram à Europa no período até agosto, e a UE pouco ou nada fez. Até agora, tivemos neste ano 20 mil chegadas, e a UE continua fazendo pouco.

Então, eu ainda defendo o diálogo com a UE, mas desde o último incidente, também estamos em conversas com países não membros do bloco europeu, como a Albânia, a Sérvia e Montenegro.

Recentemente, o senhor fechou uma aliança com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Porém, o senhor defende uma redistribuição de migrantes por toda a UE. Orbán não quer isso. O senhor não estaria mais próximo de Merkel do que de Orbán?

Eu tento retirar o melhor de todos os lados. Viktor Orbán fala da defesa das fronteiras europeias, da proteção nos países de origem e dos investimentos na África. Eu concordo com ele. Angela Merkel propõe uma redistribuição na Europa. Eu posso concordar até com essa atitude num futuro muito próximo.

O que importa é que as pessoas sejam ajudadas de maneira que não tenham que fugir de seus países. Precisamos investir rapidamente 500 milhões de euros na África. Olhando a partir dessa perspectiva, penso que tanto a Alemanha quanto a Hungria estão certas em determinadas áreas.

O senhor acompanhou o que aconteceu em Chemnitz. Qual é a sua posição sobre esses acontecimentos?

Deve ser porque Angela Merkel subestimou o risco de conflitos sociais ao afirmar que haveria espaço para centenas de milhares de pessoas na Alemanha. Lembro-me do que aconteceu naquela véspera de Ano Novo em Colônia e em outros lugares.

No entanto, a violência nunca deve ser uma solução. Violência gera mais violência, mas o governo alemão subestimou o problema por anos. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD) é uma clara reação a isso. Essa é a resposta que muitos alemães insatisfeitos tentam dar.

O senhor participa do poder há quase cem dias. Seu governo vai durar mais um ano?

Sim, acho que este governo vai durar muito tempo se ele respeitar as obrigações que os italianos nos confiaram.

Governar é mais difícil que o senhor pensava?

Bem, não é fácil. A Itália é um país grande. Temos grandes desafios a superar, mas eu estava simplesmente cansado de ser oposição.

(Com DW)

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