Merkel afaga Argentina em giro na América Latina que exclui Brasil

Já é uma constante em seu primeiro ano e meio de mandato: Mauricio Macri recebe notícias muito melhores do exterior do que de sua terra. Aplaudido pelos países centrais, que agradecem por ter acabado com 13 anos de kirchnerismo, o presidente argentino recebeu a visita que faltava para fechar o círculo do retorno de seu país ao eixo central das relações internacionais: a chanceler alemã Angela Merkel chegou a Buenos Aires com a intenção de fortalecer as relações, mostrar seu apoio a Macri e passar o bastão do G-20, do qual foi a anfitriã este ano e que em 2018 acontecerá na Argentina. Merkel passará ainda pelo México, também membro do G20, mas o Brasil, outro país latino-americano do grupo e em profunda crise doméstica, não foi incluído no périplo.

“A Alemanha não quer investir em um encontro bilateral com um Governo brasileiro que talvez não permaneça no poder. Não quer dizer que Merkel esteja questionando a legitimidade de Michel Temer, mas o momento não é o melhor para esse tipo de encontro. Em outras circunstâncias, ela faria uma parada no Brasil “, explica Oliver Stuenkel, professor adjunto de Relações Internacionais na FGV em São Paulo. Ele diz que a visita não interessava nem mesmo ao Planalto, focado em tentar sobreviver e que resumiu suas ações de política exterior à venda do discurso de que as reformas estão andando e que o Brasil voltará a crescer. A última vez que Merkel esteve no Brasil foi em agosto de 2015, quando a ex-presidenta Dilma Rousseff já enfrentava um momento conturbado de crise política e econômica.

Enquanto o Brasil submerge, a Argentina reforça pontes. A chanceler alemã e Macri mostraram sintonia e coincidiram, sem nomear, em um claro discurso de rejeição à mensagem protecionista de Donald Trump. “A Argentina já provou o isolamento como forma de gerar emprego e não funcionou. Só aprofundou a pobreza. Acreditamos na integração com o mundo”, afirmou Macri, referindo-se ao kirchnerismo e como resposta a Trump. “Nós dois queremos defender o livre comércio, queremos um mundo interconectado. Nenhum país sozinho no mundo é capaz de resolver os problemas. Todos temos que cooperar, nós dois defendemos um mundo livre e aberto”, confirmou Merkel.

Buenos Aires não recebia um chanceler alemão desde 2002, quando Gerhard Schröder viajou, tornando a visita em si uma prova clara das consequências internacionais da mudança política no país austral. Precisamente em 2003 Néstor Kirchner chegou à Casa Rosada.

Assim que chegou ao poder, Macri já recebeu um apoio muito forte com a viagem para Buenos Aires dos líderes da França, Itália e o mais esperado: Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, que fez uma longa visita à Argentina. A vitória de Donald Trump deixou o Governo argentino deslocado, algo que tentou recompor com uma recente visita de Macri ao magnata, que conhece bem de sua época como empresário, pois fizeram negócios juntos na década de 80.

Nos primeiros meses de 2016, Macri viajou para a Alemanha e se encontrou com Merkel em um gesto claro de que a Argentina queria voltar rapidamente à ortodoxia e à primeira linha das relações internacionais. Agora Buenos Aires recebe a chanceler como o fechamento desse círculo que começou com a chegada de Obama. Merkel se reuniu com Macri e antes visitou uma famosa sinagoga – Buenos Aires é uma das cidades com maior comunidade judaica no mundo – onde deixou clara sua posição: “Devemos lutar contra o antissemitismo onde ele se apresente e lutar pela democracia e a vigência do Estado de Direito no mundo todo”. Merkel lembrou que durante a Alemanha nazista a Argentina acolheu milhares de judeus que fugiram de lá. Ela não citou, mas o regime de Perón também acolheu nazistas no país, tanto que um dos mais famosos, Adolf Eichmann, foi localizado em Buenos Aires e sequestrado na década de 60 por Israel.

Merkel, a principal dirigente da União Europeia, deixou claro suas diferenças com Trump e a decisão do norte-americano de se isolar e sair, por exemplo, do acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. A chanceler, anfitriã do próximo G-20 em Hamburgo, em julho, apoiada por aliados europeus como o francês Emmanuel Macron, disputa a liderança global com o presidente dos EUA. Isso explica esta viagem à Argentina e ao México para preparar uma reunião que será tensa pelos confrontos com Trump. Merkel quer somar os países à sua tentativa de isolar Trump. O Brasil não está de todo fora da equação. “Caso Temer sobreviva a essa semana ao julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, ele deve encontrar Merkel na reunião do G20”, aposta o professor Stuenkel.

Macri por enquanto parece jogar de vários lados e evita entrar em confrontos abertos com Trump, porque precisa dos EUA como sócio já que boa parte dos investimentos estrangeiros que espera para recuperar a maltratada economia argentina virá daquele país. Mas sua linha política é muito mais próxima à de Merkel, que também promete investimentos de grandes empresas como a multinacional Siemens. E foi o que mostrou durante a conferência de imprensa conjunta. “O desafio é a revolução tecnológica, não a globalização. É mais fácil resolver através da integração”, insistiu.

Ela agradeceu o apoio contra Trump com um endosso à mudança na política argentina. “Você com seu Governo empreendeu um caminho com muita coragem, reabriu a Argentina para o mundo. Estamos muito contentes por sermos sócios. Apoiamos os esforços da Argentina para realizar reformas e ser membro de pleno direito da OCDE. Estamos acompanhados de empresários que estão vendo quais oportunidades de investimento existem na Argentina. As condições tornaram-se muito mais confiáveis”, assegurou Merkel.

No entanto, nenhum desses grandes investimentos foi concretizado e a maioria dos grandes empresários, tanto alemães quanto norte-americanos, parece estar esperando a confirmação da força política de Macri nas eleições de outubro, onde boa parte do Parlamento será renovada. A Siemens foi a estrela do fórum de investimento em Buenos Aires em 2016, que teve a presença do vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, pois prometeu um investimento de mais de 5 bilhões de euros que, até agora, não foi concretizada. A Alemanha foi em 2016 o quarto sócio comercial da Argentina, depois do Brasil, China e EUA, com um volume de 4,3 bilhões de dólares que claramente favoreceu a Alemanha, que exporta quase o triplo do que importa do país austral.

Acordo UE-Mercosul

Outro foco importante da visita foi o acordo UE-Mercosul, que está 20 anos atrasado. Merkel coloca menos problemas que os franceses e a vontade política de fundo parece clara, mas as negociações não avançam com a rapidez que os argentinos gostariam, pois precisam melhorar seu comércio. Também há resistências para abrir a economia, uma das mais fechadas do mundo, pois muito setores não podem competir já que possuem preços em dólares muito mais altos que os europeus.

A UE dá sinais constantes de que quer o acordo, e na semana passada Federica Mogherini, a Alta Representante para Assuntos Exteriores da UE, esteve em Buenos Aires e falou de “avanços significativos” nas negociações. Mas ninguém espera ter tudo resolvido até o final do ano, como os argentinos queriam.

O mais importante da visita foi portanto o gesto político, que mais uma vez coloca Macri como protagonista internacional e devolve por algumas horas as boas notícias que faltam em uma Argentina onde a economia começa a oferecer tímidos sinais positivos – a estimativa mensal de atividade econômica saiu do negativo – mas ainda sofre quedas sistemáticas de consumo, a inflação começa a diminuir, mas ainda é muito alta e, sobretudo, a população que vive no limite com preços mais altos que os da Europa e salários muito mais baixos. Macri sabe que pode contar com muito apoio internacional, mas agora luta para consolidar o que tem em casa, o mais importante.

 

Com El País

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