“Má gestão econômica também sabota democracia”

A salvação do presidente Michel Temer pela Câmara e a corrupção generalizada do seu governo provocaram danos graves à democracia brasileira. Mas a má gestão da economia nos últimos anos também fez com que a população perdesse fé no sistema democrático.

Essa é a opinião do brasilianista americano Peter Hakim, presidente emérito do Instituto de Análise Política Inter-American Dialogue, com sede em Washington.

Segundo ele, é preciso que Temer use o restante do seu mandato para pelo menos melhorar o sistema econômico e assim evitar que forças mais antidemocráticas, como o pré-candidato Jair Bolsonaro, tenham ainda mais elementos para explorar a insatisfação popular.

“Muitos brasileiros afirmam que é impossível que Jair Bolsonaro consiga vencer. Mas, como cidadão americano, eu também ouvi que era impossível que Donald Trump chegar longe”, diz.

A denúncia contra o presidente Temer reunia acusações ainda mais graves do que a primeira, que já havia sido rejeitada em agosto. Mas isso não parece ter feito diferença na Câmara. Qual é o efeito disso para a democracia brasileira?  

Esse tipo de voto ocorre em uma arena política. O Congresso não deve ser considerado como um órgão judicial. Ele leva em conta as condições políticas do presente. Então a decisão não vai ser baseada nas questões legais e até morais que um tribunal comum consideraria. É pura política.

USA Peter Hakim (Inter-American Dialogue)O cientista político Peter Hakim

Mas isso afeta o bom funcionamento da democracia? Veja, só sobraram duas narrativas no Brasil. Uma é de que o Judiciário é um dos poderes que está funcionando de maneira eficiente e está expondo a corrupção, dando esperança de que o Brasil possa conservar sua democracia. A segunda narrativa também aponta que é verdade que a corrupção é ruim para a democracia, mas, por outro lado, a prolongada estagnação econômica também não é boa.

Nesta última visão, Temer é o único com a capacidade política para realizar as reformas necessárias para reavivar a economia. Ele tem até tido algum sucesso nessa área, considerando as circunstâncias e sua falta de popularidade. Então existem aqueles que argumentam “nós queremos nos livrar da corrupção, mas a volta do crescimento econômico também é muito importante, talvez mais até mais importante do que processar cada corrupto”.

Acho que é possível combater a corrupção e favorecer o crescimento econômico, mas as pessoas no Brasil só estão escolhendo um  lado ou outro. No final, a visão econômica acabou influenciando muitos votos a favor de Temer.

Alguns deputados, de fato, justificaram seus votos afirmando que trocar o presidente mais uma vez em pouco mais de um ano seria um fator de desestabilização. Mas esse não é um pragmatismo cínico?

Esse argumento faz sentido quando não há uma pessoa ou um grupo se apresentando como possíveis substitutos, e, além disso, como substitutos mais honestos do que Temer.  A alternativa óbvia seria o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mas ele também está sendo investigado pela Justiça.

Nesta visão, esse argumento pragmático tem algum sentido. Mas é claro que, por outro lado, isso também causa danos ao Estado de Direito e à noção democrática de que todos são iguais perante a lei.

A democracia brasileira foi, sem dúvida, terrivelmente ferida por mais esse episódio e pela corrupção, mas ela também já havia sido ferida por uma desastrada política econômica.

Temer conseguiu menos votos na votação dessa segunda denúncia do que em relação à primeira, em agosto. Isso mostra que o presidente vai ter ainda mais dificuldade em aprovar o pacote de reformas, em especial a da Previdência?

Essa é uma visão bem difundida no Brasil, até porque a série de concessões que ele fez para assegurar a vitória o enfraqueceu ainda mais. Além disso, as reformas que ele promove não são lá muito populares. Ele, sem dúvida, não está em uma boa posição, mas ele também já recebeu bastante crédito de vários analistas pelo que já conseguiu fazer, considerando as circunstâncias.

As eleições de 2018 já começam a dominar as atenções. Mas, se a economia melhorar, o que é bem possível nos próximos meses, ele vai receber algum crédito por isso, mesmo que não consiga passar suas reformas. Lembre que os presidentes são elogiados por seu desempenho até quando o preço das commodities sobe.

Em 1989, o naufrágio econômico e moral do governo Sarney abriu o espaço para Fernando Collor. O último ano de Temer à frente do governo pode abrir caminho para novos aventureiros em 2018?

Com certeza. E o risco atual é muito mais grave do que aquele representado por Collor em 1989. Ainda é um mistério determinar quais vão ser os dois candidatos a emergir do primeiro turno. Muitos brasileiros afirmam que é impossível que Jair Bolsonaro consiga passar e depois vencer. Mas, como cidadão americano, eu também ouvi que era impossível que Donald Trump chegar longe.

Apoiadores de Hillary Clinton diziam “impossível, os eleitores nunca vão votar em um candidato assim”. As pesquisas hoje mostram que Bolsonaro está em segundo lugar. Comparado com Collor, Bolsonaro é um homem extremamente perigoso para a sociedade, especialmente em um momento em que as pessoas estão questionando a democracia e os partidos estão se esfarelando.

Colocado desta forma, já que o governo Temer não deve fazer nada para impedir a corrupção, ele precisa pelo menos acertar a economia para recuperar alguma confiança no sistema e ajudar a evitar que figuras como Bolsonaro, que já se aproveitam do discurso anticorrupção, a chegar mais longe?

Exatamente. Isso é colocar em forma de pergunta o que estou dizendo. Má gestão econômica também sabota a democracia. Basta ver o que aconteceu na Argentina.  Os brasileiros já se referem a alguns de seus políticos pela definição “rouba, mas faz”. É uma questão ética difícil.

Não esqueça que o PT, a principal força de oposição, vai lançar Lula, que já foi condenado por corrupção. A maior parte do PT votou contra Temer, mas também não oferece uma alternativa ética a tudo que está acontecendo.

O Brasil está em uma situação terrível. Acredito que é possível combater a corrupção e incentivar a economia, mas o quadro de opções no Brasil está bastante limitado.

 

 

Com DW

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