“LOBOS SOLITÁRIOS SÃO O PIOR PESADELO DAS AUTORIDADES DE SEGURANÇA”

O caso do jovem afegão que atacou passageiros de um trem regional nas proximidades de Würzburg, no sul da Alemanha, nesta segunda-feira (18/07) destaca a possibilidade da ação dos chamados “lobos solitários” no país. Isso porque, até o momento, as investigações indicam que o agressor agiu sozinho.

Segundo Rolf Tophoven, diretor do Instituto de Prevenção de Crises (Ifus), na Alemanha, autoridades de segurança têm dificuldades de monitorar possíveis autores individuais de ataques.
“Só é possível reconhecer um “lobo solitário” nesse ambiente se a pessoa chamar a atenção para si por meio de declarações ou atos extremistas, dentro ou fora do contexto de um grupo”, explica Tophoven, que pesquisa o tema terrorismo há décadas.

DW: Que papel desempenham militantes que agem sozinhos na luta atual contra o terrorismo?

Rolf Tophoven: Quando indivíduos que atuam sozinhos têm efetivamente um vínculo com a cena jihadista e salafista, estamos diante de alguém que possui um padrão de conduta de um “lobo solitário”. Isso porque ele não trabalha em estreita colaboração com um grupo e, assim, não há nenhum indício prévio de um ataque repentino.
Há muito tempo, as autoridades de segurança temem que os autores individuais – ao lado das células terroristas organizadas – representem uma grande ameaça. Um homem que não está na mira das autoridades de inteligência ou da polícia é como uma “bomba-relógio”. A qualquer momento pode ocorrer uma autorradicalização e, com isso, os atos que se seguem são muito difíceis, se não impossíveis, de serem evitados.

Então, o que as autoridades podem fazer para chegar a tais indivíduos?

Diversos centros islâmicos na Alemanha estão sendo monitorados, especialmente nas grandes cidades. É claro que as células são conhecidas, mas as autoridades também observam pessoas que estão à margem da atividade extremista. No entanto, só é possível reconhecer um “lobo solitário” nesse ambiente se a pessoa chamar a atenção para si por meio de declarações ou atos extremistas, dentro ou fora do contexto de um grupo. Caso contrário, tal pessoa fica absolutamente despercebida.

Já foram registrados na Alemanha ataques feitos por “lobos solitários”?

Uma pessoa que se radicaliza e planeja um ataque a portas fechadas é o pesadelo das autoridades de segurança. Houve um caso em 2011. Ninguém poderia prever que Arid Uka, um kosovar de 21 anos sem antecedentes criminais, fosse atirar e matar dois soldados americanos e ferir outros dois no aeroporto de Frankfurt. Foi o primeiro ataque islamista que não se conseguiu evitar na Alemanha.

O que sabemos sobre tais “lobos solitários” motivados pelo extremismo islamista?

Eles são extremamente frustrados. Eles não têm perspectiva de carreira, e alguns não conseguem se integrar à sociedade. Eles agem simplesmente por desespero. E isso é o que os torna tão suscetíveis às organizações terroristas.

Até que ponto, por meio de instruções de organizações terroristas que circulam na internet, permite-se tirar conclusões sobre criminosos e possíveis alvos em potencial?

Sempre há chamados de líderes islâmicos que dizem: pegue simplesmente o que você tiver em mãos, como uma faca ou um carro, dirija até uma multidão e mate como puder. A tendência é a ação de pequenos grupos usando os meios mais simples, mas que têm um amplo efeito. É por isso que todos os locais onde há grandes aglomerações de pessoas estão especialmente em risco.

Há estimativas sobre a probabilidade de mais ataques de autores individuais e sobre quantos desses “lobos solitários” existem na Alemanha?

Não é possível dar uma resposta credível para esta pergunta. Não há nenhuma maneira de saber se os ataques realizados por atores individuais irão aumentar. O Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BKA), por exemplo, fala em cerca de 400 pessoas que são consideradas uma ameaça.

O presidente do Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV) da Alemanha, Hans-Georg Maassen, me disse uma vez que todos que não estão na mira das autoridades representam uma ameaça diária.

Pessoas que regressam das zonas de guerra do “Estado Islâmico” (EI) são uma grande ameaça quando se organizam em redes. O perigo está nas redes que se formam entre indivíduos que estão preparados para cometer atos terroristas.

Você acredita ser necessário um maior monitoramento das comunicações e uma retenção de dados mais extensa?

Eu sempre defendi, e o BKA sempre exigiu isso. Mas é questionável se eles, no que diz respeito a agressores individuais desconhecidos, conseguiriam fazer progressos com o uso desses meios. As leis que regem tais atividades são rígidas. Além disso, a troca de dados confidenciais entre as agências de segurança da União Europeia é altamente deficiente. Ainda há ainda poucos perfis de “lobos solitários” consistentes.

Com DW

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