Google descobre anúncios comprados por russos no Youtube e no Gmail

O Google pela primeira vez descobriu provas de que operadores russos exploraram as plataformas da empresa em uma tentativa de interferir na eleição norte-americana de 2016, de acordo com pessoas informadas sobre a investigação conduzida pela empresa.

O gigante do Vale do Silício descobriu que dezenas de milhares de dólares foram gastos por agentes russos na veiculação de anúncios cujo objetivo era difundir desinformação.

Muitos dos serviços da empresa foram utilizados, entre os quais o Youtube, o serviço de buscas do Google, o Gmail e a rede de publicidade DoubleClick, disseram as fontes, falando sob a condição de que seus nomes não fossem revelados porque estavam discutindo assuntos que não haviam se tornado públicos.

O Google opera o maior serviço de publicidade online do planeta, e o YouTube é o maior site mundial de vídeos online.

A descoberta do Google também é significativa porque os anúncios não parecem prover da mesma “troll farm” afiliada ao Kremlin que adquiriu anúncios no Facebook – um claro sinal de que o esforço russo para difundir desinformação online pode ser um problema muito maior do que as empresas do Vale do Silício descobriram até o momento.

O Google anteriormente havia minimizado o problema da interferência russanas plataformas da empresa.

No mês passado, Andrea Faville, porta-voz da companhia, disse ao “Washington Post” que a empresa “está sempre monitorando possíveis abusos e violações de nossas normas, e não vimos indicações de que esse tipo de campanha publicitária tenha sido veiculado em nossas plataformas”.

Mesmo assim, o Google lançou uma investigação sobre o assunto, agora que o Congresso dos Estados Unidos está pressionando as empresas de tecnologia a determinar de que maneira agentes russos usaram a mídia social, publicidade online e outros recursos digitais a fim de influenciar a disputa presidencial de 2016 e fomentar a discórdia na sociedade norte-americana.

O Google se recusou a comentar para esta reportagem.

As pessoas familiarizadas com a investigação disseram que a companhia está averiguando um conjunto de anúncios que custaram menos de US$ 100 mil, e ainda não determinou se todos eles vieram de trolls ou se alguns se originaram de contas russas legítimas.

Até o momento, o Google vinha em geral evitando o escrutínio a que seu rival Facebook está sendo submetido.

A rede social recentemente revelou aos investigadores do Congresso detalhes sobre três mil anúncios adquiridos por agentes russos associados à Internet Research Agency, uma “troll farm” [organização que cria grande número de contas falsas em sites e redes sociais da Web, para spam ou uso político] afiliada ao governo russo.

Alguns dos anúncios, que custaram no total cerca de US$ 100 mil, promoviam Donald Trump, Bernie Sanders e Jill Stein, a candidata presidencial do Partido Verde, durante a campanha, disseram as fontes informadas sobre os anúncios.

Outros anúncios pareciam ter por objetivo fomentar a divisão nos Estados Unidos, promovendo sentimentos de hostilidade aos imigrantes e de animosidade racial. O Facebook informou que esses anúncios atingiram apenas 10 milhões dos 210 milhões de usuários norte-americanos que usam seus serviços a cada mês.

Pelo menos um pesquisador independente disse que a influência dos esforços de desinformação russos no Facebook é muito maior do que a companhia admitiu até agora, e que abarca anúncios pagos e posts em páginas de Facebook controladas por agentes russos.

Esses posts foram compartilhados centenas de milhões de vezes, disse Jonathan Albright, diretor de pesquisa do Tow Center for Digital Journalism, na Universidade Columbia. O Facebook revelou em um post de blog que está estudando mais 2,2 mil anúncios que podem não ter vindo da Internet Research Agency.

“Também estamos estudando anúncios que podem ter se originado na Rússia —mesmo aqueles com sinais muito fracos de conexão e não associados a qualquer esforço organizado que conheçamos”, informou a empresa no mês passado.

“Realizamos uma busca ampla, incluindo, por exemplo, anúncios comprados de IPs associados aos Estados Unidos mas em transações realizadas no idioma russo —ainda que essas transações não tenham necessariamente violado qualquer norma ou lei. Nessa porção de nossa revisão, identificamos cerca de US$ 50 mil em gastos publicitários com fins potencialmente políticos, em cerca de 2,2 mil anúncios”.

O Twitter, por sua vez, informou ter fechado 201 contas associadas à Internet Research Agency. Também revelou que a conta do site noticioso RT, que a empresa vê como ligado ao Kremlin, gastou US$ 274,1 mil em sua plataforma em 2016.

O Twitter não informou quantas vezes a desinformação espalhada pelos russos foi compartilhada.

A empresa está investigando a questão e tentando mapear a relação entre as contas russas e personalidades de mídia famosas e influencers associados às campanhas de Donald Trump e de outros candidatos, disse uma pessoa informada sobre a investigação interna do Twitter. A RT também tem presença considerável no YouTube.

O Twitter se recusou a comentar para esta reportagem.

Executivos do Facebook e do Twitter deporão diante de investigadores do Congresso norte-americano em 1º de novembro. O Google ainda não informou se aceitará convite para fazer o mesmo.

As agências de inteligência dos Estados Unidos concluíram em janeiro que o presidente russo Vladimir Putin havia interferido na eleição norte-americana a fim de ajudar Trump a vencer. Mas as empresas do Vale do Silício não receberam muita assistência dos serviços de inteligência em suas investigações, disseram pessoas familiarizadas com os inquéritos.

O Google descobriu a presença russa em suas plataformas ao obter dados de outra empresa de tecnologia, o Twitter, disseram pessoas informadas sobre a investigação da empresa. O Twitter oferece a terceiros a possibilidade de acessar alguns tuites históricos gratuitamente, e também oferece aos desenvolvedores acesso pago a todo seu imenso banco de dados, que remonta a 2006.

O Google baixou dados do Twitter e conseguiu vincular contas russas no Twitter a outras contas que haviam empregado serviços do Google para adquirir anúncios, disseram as fontes. Isso foi feito sem cooperação explícita da parte do Twitter, as fontes acrescentaram.

A investigação do Google ainda está no começo, disseram as fontes. O número de anúncios postados e o número de visitantes que eles atraíram não foram revelados. O Google continua a examinar seus registros e também está compartilhando dados com o Facebook. Twitter e Google não cooperaram mutuamente em suas investigações.

 

Com Folha de São Paulo

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