Eleições na AL geram incerteza sobre recuperação econômica

A partir de outubro deste ano, sete países da América Latina entram em uma sequência de processos eleitorais importantes para o futuro (veja infográfico no pé da matéria). As eleições ocorrem em meio a um período de turbulência na região e com o risco de ampliação da austeridade fiscal. Segundo especialistas ouvidos pelo R7, este cenário de incerteza pode trazer resultados que não representam o desejo da população e pode prejudicar ainda mais as camadas mais pobres.

De acordo com o professor de Relações Internacionais Igor Fuser, da Universidade Federal do ABC (UFABC), toda a América Latina passa por um período de retrocesso econômico e social, decorrente principalmente do capital estrangeiro nas economias nacionais e da exploração predatória de recursos naturais.

— A população está em uma luta desesperada pela a sobrevivência individual. Porque existe o aumento do desemprego, uma diminuição dos salários, um cenário de corte de benefícios sociais e a falta de investimento produtivo. Neste cenário, o nível de insegurança pessoal é brutal.

Conforme explica o especialista, a América Latina, de forma geral, viveu um ciclo de desenvolvimentismo do início dos anos 2000 até 2015, mas as forças de esquerda pelas quais a população optou tiveram um processo de desgaste que abriu espaço para a direita.

Os grupos que assumiram o poder, no entanto, não conseguiram se firmar como portadores de um processo de futuro e não apresentaram melhorias para a população.

— Aquelas condições que permitiam a emergência de governos reformistas alicerçados na alta das commodities não existem mais. Então qualquer alternativa de esquerda vai causar uma situação de confronto social em uma escala muito maior. O fim desse ciclo progressista não está dando lugar ou inaugurando um novo ciclo que venha tomar o seu lugar. O que tem é um cenário de indecisão, de ausência de projetos, de ausência de propostas, de falta de lideranças e de populações órfãs de perspectivas.

Venezuela

O reflexo do caos na economia fica evidente, sobretudo, com a análise da inflação na Venezuela, onde a população sofre com a falta de alimentos e, quando eles chegam às prateleiras, estão com altos preços.

Em agosto passado, um relatório publicado pelo Torino Capital mostrou que a hiperinflação havia registrado alta de 648,9% nos últimos doze meses. Diante desse aumento, a empresa faz projeções para o final do ano e os resultados podem chegar a 717%.

Segundo o economista Italo Lombardi, estrategista de América Latina do banco Crédit Agricole, embora esses números sejam difíceis de serem calculados na Venezuela, eles têm um alto potencial de influenciar os resultados de processos eleitorais.

— A inflação tem um impacto mais direto porque mexe no poder de compra e dá a impressão de que o salário está sendo defasado com mais rapidez. A população se prejudica muito principalmente por causa dos mais pobres que não têm proteção contra a inflação. Isso tem um impacto muito grande nas eleições [veja infográfico no pé da matéria] e é uma das variáveis importantes.

Para Lombardi, a insatisfação gerada pela escalada de preços, somada a casos de corrupção, pode fazer com que a população desenvolva um sentimento de indiferença e negação da política, assim como acontece hoje no Brasil.

— É um tema comum na região. Essa rejeição acontece em todos os países da América Latina por causa da crise mais profunda já vista na região. No Brasil, essa rejeição ao modelo até o momento em que o PT estava no poder é mais forte realmente porque a crise da corrupção está no Brasil.

A análise também é feita pelo professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, Pedro Costa Júnior, que explica que “os eleitores votam com o bolso” e desejam que alguém assuma o poder para que a economia se torne mais estável.

— O primeiro critério que ele olha é o econômico, uma questão que também está muito relacionada com o emprego e a renda. Tudo isso vai diretamente influenciar bastante as eleições [veja infográfico no pé da matéria].

Argentina

A Argentina é o segundo país da América Latina com o maior índice de inflação depois da Venezuela e, segundo o professor Fuser, a situação de intolerância a partidos é parecida com a que ocorre no continente.

— Essa memória é de um final difícil para a Cristina Kirchner na Argentina e ainda está muito presente na população pelos próprios erros e dificuldades do governo. Ela favorece as forças conservadoras, mas a direita também não consegue melhorar a situação. O que resta é ser cada um por si, a negação da política e a indiferença.

México

Diferente da situação do restante da América Latina, o México apresenta um cenário diferente, o que o professor da UFABC chama de “ciclo desenvolvimentista atrasado”, influenciado principalmente pela interferência dos Estados Unidos.

“Houve a destruição da maior parte da indústria mexicana e tem também a destruição da maior parte da agricultura mexicana com o ingresso de produtos agrícolas dos Estados Unidos com preços muito mais competitivos”, diz Fuser.

— A gente não pode comparar a agricultura familiar do México com o agronegócio mais desenvolvido do mundo que é o dos Estados Unidos. Então eles entram lá arrasando com os mercados. A única coisa que resta para eles é o crime organizado ou a imigração. Mas como o endurecimento das políticas migratórias, essa válvula de escape está cada vez menos eficaz.

Conforme explica Lombardi, essa dependência acontece principalmente pela participação que o México tem no Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) e, para a população, a figura de Andrés Manuel López Obrador, do Movimento Regeneração Nacional (Morena), é a melhor para lidar com a influência dos Estados Unidos.

— O México é muito mais próximo dos Estados Unidos, na verdade, do que da América Latina. Para eles, o que acontece nos Estados Unidos é muito mais importante do que acontece com os países latinos. O (Donald) Trump é que tem um papel importante nesse caso e a população acha que o López tem as melhores condições para negociar com os Estados Unidos.

 

Com R7

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