CRISE NA VENEZUELA: “A VENEZUELA SEPAROU A NOSSA FAMÍLIA”

A história das famílias de venezuelanos que chegaram a Pernambuco para tentar vida nova como parte do programa que tenta aliviar a crise dos refugiados concentrados em Roraima

o final do ano passado, tive que escolher entre comprar comida ou roupa para os meus filhos. Acabou que eles não tiveram mais o que vestir”. Com os olhos marejados, Rosmary Sarabia, de 22 anos, contava as razões pelas quais ela deixou a cidade venezuelana de El Tigre, a cerca de 500 quilômetros de Caracas, e veio para o Brasil com o marido e os filhos, de um e quatro anos. “Muitas vezes só tínhamos sardinha para comer”. A família de Rosmary, assim como outras 17, chegaram na semana passada ao município pernambucano de Igarassu, de pouco mais de 110.000 habitantes, na região metropolitana do Recife. A cidade é uma das seis no país a receber os refugiados por meio de uma iniciativa do Governo Federal, com o apoio da ONU, que tenta distribuir pelo país as centenas de imigrantes, antes concentradas no Estado fronteiriço de Roraima.

Segundo a Polícia Federal, mais de 48.000 venezuelanos entraram no Brasil por lá e não deixaram mais o país, entre 2017 e abril deste ano. Estima-se que mais da metade deste número ainda esteja vivendo pelos abrigos e ruas de Boa Vista, a capital. Em maio, data do levantamento mais recente, a PF já havia registrado mais de 25.000 solicitantes de refúgio. É uma escalada sem precedentes: em 2015, o número não chegava a 1.000 solicitações.

Para tentar aliviar a pressão em Roraima, um Estado de 500.000 habitantes, o Governo começou, em fevereiro, a buscar cidades pelo país para receber os imigrantes, inteorizá-los, no termo usado pelas autoridades. É um processo voluntário ao qual 690 venezuelanos já aderiram. Nas histórias abaixo, um pouco da vida dos que decidiram tentar recomeçar em Pernambuco, suas expectativas e o que os espera.

“Se você não está com o Governo, então não está com nada”

Jhonard Mendonza, 29, e a mulher, Nayelis Macuares, 19, deixaram na cidade de El Tigre os dois filhos, aos cuidados da avó. “Queremos nos organizar aqui para então ir até lá e buscá-los”, diz o pai. “É muito difícil saber que hoje, eu estou aqui, comendo, enquanto não sei o que eles estão comendo lá”.

Na Venezuela, Jhonard era funcionário da Guarda Civil até 2015, mas deixou o posto por não concordar com as políticas governistas de Nicolás Maduro. “Na Venezuela, se você não está com o Governo, então não está com nada”. Por isso, decidiu dar aulas de matemática na rede privada. “Mas o número de alunos foi diminuindo a cada mês”, conta. “Os pais não conseguiam mais pagar a mensalidade”, explica ele.

Sem alunos e sem perspectiva, o professor e a mulher partiram para Boa Vista no final de março. Passaram um mês dormindo nas ruas até conseguirem uma vaga em um abrigo. “Quando chegamos ao Brasil, dormimos no chão. Depois, em um colchonete. Agora temos uma cama”, diz, ao chegar ao abrigo em Igarassu horas depois de desembarcar em Recife em um avião da Força Aérea Brasileira, com outros 163 imigrantes vindos de Boa Vista. Ele faz parte do grupo de 69 pessoas que acabou na cidade – 44 seguiram viagem para o município paraibano do Conde e outros 50 rumaram, no voo da FAB, para o Rio de janeiro. Por quê Pernambuco? Ele diz ter escolhido Pernambuco por saber que as pessoas “gostam muito de arte”, além de ser um local turístico, o que lhe deu a expectativa de conseguir algum emprego. “Gostei daqui, mas é um poquito caliente, não?”, falou, sobre o clima.

Jhonard escolheu o Brasil, mas o êxodo venezuelano não é só em direção ao país. Na Colômbia, outro país fronteiriço, já passa dos 500.000 o número de imigrantes vizinhos. No Peru, mais de 350.000 venezuelanos chegaram fugindo da crise. Pesou na decisão do ex- funcionário da Guarda Civil a expectativa de um bom atendimento de saúde no setor público, ainda que a assistência médica do Estado seja uma queixa frequente dos próprios brasileiros: “Uma vez, um venezuelano passou mal em Boa Vista. A ambulância chegou em dois minutos. Na Venezuela, não chegaria nunca. Não há socorro”.

“A Venezuela separou a nossa família”

Ramon Villasana, 48, era petroleiro da PDVSA na época em que os funcionários da estatal lideraram a greve geral da Venezuela ocorrida entre o final de 2002 e o início de 2003. Organizada pela oposição, o movimento pedia a renúncia do então presidente Hugo Chávez. Sem conseguir alcançar seu objetivo, o movimento foi perdendo força até acabar. Mas a fatura foi paga por milhares de funcionários da petroleira, demitidos na sequência. Villasana, que estava na estatal há mais de uma década, foi um deles. “Eu perdi tudo”, conta.

Desde então, ele não conseguiu se recolocar no mercado. Trabalhou em supermercados e fazendo bicos. Mas com a crise econômica do país, ficou cada vez mais difícil trabalhar. Por isso, no final de fevereiro, veio para o Brasil com a filha mais nova, deixando na Venezuela a mulher e a outra filha. “A Venezuela separou a nossa família”, diz. “O meu genro está na Colômbia. Cada um está em um lugar diferente”. Ele espera conseguir um emprego e poder buscar o restante dos parentes. Ele e a filha são uma das 18 famílias que ficarão abrigadas por até seis meses em uma das sete casas disponibilizadas da ONG Aldeias Infantis SOS. A ONG, que recebe preferencialmente grupos familiares, foi selecionada pelo braço da ONU para os refugiados, ACNUR.

Villasana afirma ter escolhido Pernambuco para viver pois ouviu falar da refinaria de Abreu e Lima, que fica em Suape, a cerca de 80 quilômetros de Igarassu. O projeto da refinaria, lá na sua origem, era uma joint venture entre a Petrobras e a PDVSA que acabou nunca saindo do papel. “Vai que eu consigo um emprego lá….”.

Para ele, o que está acontecendo na Venezuela hoje é “culpa de um governo autoritário”. “Aliás, um dos candidatos à eleição aqui no Brasil é um militar e bastante autoritário, né? Sabe quem ele me lembra? Maduro”, diz, se referindo a Jair Bolsonaro (PSL).

“Na Venezuela não há mais profissão”

Maudi Arzola, 32, e a mulher, Milagros Salazar, 28, decidiram deixar a Venezuela em 2014. Na época, Milagros conta que não conseguiu tirar os passaportes da família, porque não havia papel para a emissão. “Quando isso se normalizou, nós não tínhamos mais dinheiro para pagar pela documentação”, diz ela, que era faxineira em um hospital. O marido, motorista de um caminhão de lixo, diz que o salário que recebia mal dava para comer. “Eu recebia um salário de 100.000 bolívares, mas um saco de arroz custava 80.0000. Como alimentar a minha família assim?”.

Por isso, passaram a vender cigarros pela cidade de Bolívar, onde viviam, para juntar dinheiro e comprar as passagens de ônibus para que o casal e os cinco filhos – Jesus Daniel, 14, Mileydis, 12, Divis, 10, Emily, 9, Daniela, 7 – conseguissem chegar até a fronteira com o Brasil. Chegando em Pacaraima, a cidade brasileira fronteiriça, caminharam ao longo de dois dias, por 200 quilômetros, até Boa Vista. A família passou uma semana nas ruas até conseguir vaga em um abrigo.

Orgulhoso de sua função de motorista, que diz ter herdado do pai, Arzola afirma que muitos acabaram em subempregos em seu país, por não terem escolha. “Hoje na Venezuela, advogado é taxista, engenheiro é taxista. Não há mais profissão por lá”, diz. “Escola tem, mas como a criança vai escrever, se ela não come?”. Os filhos, diz, são a principal razão de a família estar em busca de um recomeço. “Quero que meus filhos tenham uma vida tranquila”, diz. “Nunca pensei em sair da Venezuela nessa situação de extrema pobreza. E o presidente diz que está tudo bem”.

Agora Arzola, a mulher e os filhos terão aulas de português, acompanhamento médico, oficinas sobre a legislação brasileira, auxílio para fazerem seus currículos e encaminhamento das crianças e adolescentes às escolas, segundo explicou Sergio Marques, subgestor nacional da ONG que os recebe. “Ajudaremos com o encaminhamento, para que eles possam recomeçar a vida” disse. Segundo ele, todas as crianças e adolescentes recebidos estão acompanhados pelos pais e mães e todos os refugiados estão com os documentos em dia, inclusive a carteira de vacinação.

“Na Venezuela não há futuro”

Reinaldo Díaz, 45, trabalhava na prensa de um jornal venezuelano, em 2016, quando a crise explodiu. Ele conta que chegou a faltar papel para que o jornal fosse produzido. “Quando Maduro chegou, tudo piorou”, diz. Sem emprego e nenhuma perspectiva, teve que pensar em um plano B. “Decidi que tinha que vir ao Brasil quando não tinha mais o que dar de comer para a minha filha”.

No final do ano passado, foi para Roraima pela primeira vez. Decidido a viver no Brasil, voltou à Venezuela para buscar a mulher e a filha de um ano. “O futuro é dela”, diz, apontando para a criança”. “Na Venezuela não há futuro”. O único medo de Reinaldo é que expirem os seis meses, tempo máximo que eles podem ficar na ONG Aldeias Infantis, sem que ele tenha conseguido um emprego. “Não importa o que vou fazer, quero trabalhar”.

Entre as autoridades, há a sombra de outro medo: o de alguma reação xenófoba contra os refugiados. O Brasil, país historicamente miscigenado, vem vivendo episódios considerados preocupantes. Há pouco mais de um ano, por exemplo, dezenas fizeram um protesto na avenida Paulista contra a Lei da Migração, que julgavam como permissiva demais. Por isso, o processo de interiorização dos venezuelanos tem sido feito na mais estrita discrição. Sob sigilo, representantes de entidades que recebem os imigrantes confirmaram à reportagem que receberam a orientação de não divulgar a operação temendo respostas negativas.

O silêncio foi mantido até para os prefeitos. “Foi uma surpresa”, disse Mario Ricardo (PTB), prefeito de Igarassu. “Soubemos da chegada das famílias apenas dois dias antes”. A prefeita do Conde, Marcia Lucena (PSB), a cidade da Paraíba que também recebeu os refugiados, disse, por telefone, que teve a confirmação da vinda dos imigrantes três dias antes da chegada deles: “Houve essa preocupação.”

O temor não é infundado. Na própria cidade do Conde, o vereador Fernando Araújo (PTdoB) fez um vídeo que está circulando pelas redes sociais em que ele afirma estar tomando “todas as precauções em relação aos venezuelanos”. “Estou entrando em contato com a secretaria do município e do Estado para saber quais atitudes da profilaxia, imunização e até mesmo tratamento de alguns venezuelanos que aqui estão no nosso município”, diz ele.

(Com El País)

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