COMO A ITÁLIA SUCUMBE AO FASCÍNIO POPULISTA DE MATTEO SALVINI

Os ultradireitistas têm grande chance de vencer as eleições regionais na Sardenha neste domingo. Pleito é encarado como teste para uma nova coalizão em Roma, enquanto o avanço da direita na Itália parece inevitáve

Música pop enche a praça do mercado de Sássari. No palco super iluminado, de costas para o público, está o atual astro político da Itália, Matteo Salvini. Com o braço no ombro de um jovem, ele tira uma selfie. Os apoiadores do radical de direita fazem uma longa fila para subir ao palco. Entre eles há inclusive uma família de negros, claramente estrangeiros.

Ao longo de duas horas, a cada 30 segundos, Salvini, sorridente, tira uma foto de recordação. Essas sessões de selfies são uma marca registrada de sua campanha eleitoral. De quando em quando ele faz uma pausa para fumar um cigarro ou dar entrevista a um dos jornalistas televisivos presentes. Para fora do bolso da calça, espia um ursinho de pelúcia, presente de uma admiradora.

O ministro do Interior angariou simpatias com seu jeito atirado e linha-dura contra os imigrantes, e aparece na dianteira em pesquisas de opinião. Se rescindisse hoje a coalizão de governo que sua Liga mantém há oito meses com o populista Movimento Cinco Estrelas, ele teria boas chances de ser o próximo chefe de governo italiano, em eleições antecipadas.

Depois do pleito regional na Sardenha, neste domingo (24/02), e das eleições para o Parlamento Europeu, no fim de maio, em que seu partido poderá vencer, Salvini se sentirá bastante confiante para dar esse passo, avaliam comentaristas políticos do país. Ele já venceu uma eleição-teste 14 dias atrás, na região central de Abruzos, cujo futuro líder será um neofascista do partido Irmãos da Itália (FdI).

Indagado pela DW se pretende tornar-se em breve primeiro-ministro, Salvini dá um risinho, antes de responder: “Sou o ministro do Interior, não tenho intenção de me tornar premiê. Eu me ocupo da segurança interna, da máfia, tráfico humano, drogas, terroristas. Para mim é uma honra fazer esse trabalho, vou mantê-lo ainda por muito tempo.”

Antes, ele fizera um giro de seis dias pela ilha da Sardenha, no qual apresentou a eleição regional a se realizar no domingo como um teste para o clima político em toda a Itália. “Vocês agora têm a escolha entre a Liga e a esquerda, a escolha entre futuro e a queda total. Vamos nos libertar dos esquerdistas!”, bradava para os fãs em júbilo, no mercado de legumes e peixes da cidade costeira de Alghero.

Com “esquerda”, o ultradireitista se refere não só aos social-democratas e comunistas, ambos se arrastando à beira da insignificância política, mas também ao populista Movimento Cinco Estrelas, o mal-amado parceiro de coalizão da Liga em Roma.

Em seus breves discursos, Salvini esbraveja contra a imigração e promete o cancelamento da reforma da Previdência e mais respeito pela nação: “Temos uma bandeira, há uma língua, uma identidade, uma história, uma tradição, uma cultura que precisamos viver. Uma árvore que não tem raízes morre.” Sob os uivos da multidão, chama seus adversários, dos quais apenas uns poucos protestam no mercado, de gente “que vê fascistas e marcianos por toda parte” e que ele não pode levar a sério.

Donnatella Morittu, uma quitandeira de Alghero, quer ver Salvini como chefe de governo: “Seria fantástico!”, exclama. E está segura que, o mais tardar após as eleições da União Europeia, algo vai mudar no panorama político da Itália. “Muito em breve.”

Antes, ela simpatizava com o Cinco Estrelas. “Mas eles fizeram muitos erros. Com o Salvini, a gente vê que ele ataca as coisas de frente. Além disso, é também bonitão”, comenta a vendedora, enquanto empacota, animada, tangerinas para uma freguesa que concorda com a cabeça.

Enquanto isso, Salvini faz uma selfie atrás da outra em seu pequeno pódio no decadente mercado aberto de Alghero. O ministro doa bastante tempo, abraça, brinca, bate papo. Questionado por que posa horas a fio, responde, relaxado: “Eu escuto as pessoas porque elas também me escutam.”

Também a aposentada Gavina é fã do radical de direita. Pousando as sacolas de compras, ela levanta as mãos e sublinha as palavras com gestos eloquentes: “Ele é o único que faz alguma coisa de concreto e cumpre suas promessas. O único!” O líder da Liga se gaba em especial da virada radical na política de imigração: ele fechou os portos para os refugiados, e barcos de migrantes não podem mais aportar. A multidão aplaude.

O peixeiro Salvatore Manca está convencido de que Matteo Salvini cuida para que haja ordem e segurança. “Ele ama as pessoas. O povo e também os policiais adoram ele.” E completa: “Ele devia fazer aliança com os Irmãos da Itália e virar primeiro-ministro.”

A legenda neofascista FdI é potencial parceira numa coalizão populista de direita com a Liga de Salvini e o Força Itália do ex-premiê Silvio Berlusconi. Numa entrevista, a extremamente nacionalista líder dos Irmãos da Itália, Giorgia Meloni, já se ofereceu como possível parceira de coalizão governamental, no caso de eleições antecipadas. O magnata da mídia Berlusconi, de 82 anos, tampouco descarta uma aliança com a direita radical.

“A Itália está confusa e vai descambando para a direita”, comenta à DW, após a campanha eleitoral na Sardenha, Antonio di Rosa, redator-chefe do importante jornal local La Nouva Sardegna. Após longa conversa com Matteo Salvini, ele está convencido de que este procede com grande esperteza e persegue um plano bem definido.

“Ele é um político absolutamente estratégico, mas sem cultura nem saber mais profundo. Ele faz o que lhe convém, sem nenhuma convicção por trás”, adverte Di Rosa. A seu ver, os populistas do Cinco Estrelas se encontram numa profunda crise por sempre dizer “não” a tudo.

“Acho que, depois do pleito para o Parlamento Europeu, Salvini vai convocar eleições nacionais antecipadas e aí fundar uma nova coalizão. Depois dessas eleições, nós vamos ter um novo governo.”

(Com DW)

Seja o Primeiro a comentar on "COMO A ITÁLIA SUCUMBE AO FASCÍNIO POPULISTA DE MATTEO SALVINI"

Deixe um comentário

Seu email não será publicado.


*