Ataque atribuído a dissidentes das FARC mata vários civis e deixa dezenas de feridos

Vários civis morreram nesta quinta-feira durante um protesto de produtores de coca na localidade litorânea de Puerto Rico, na Colômbia, perto da fronteira com o Equador. As autoridades atribuíram o ataque, que deixou dezenas de feridos, a uma dissidência da extinta guerrilha FARC no departamento de Nariño, onde há extensas plantações da folha de coca, mantidos por grupos residuais da guerrilha e por quadrilhas locais. Algumas associações de camponeses culpam, por sua vez, as forças de segurança. Diferentes fontes afirmam que haveriam entre quatro e sete mortos.

A investigação preliminar aponta, segundo as autoridades, para um grupo armado liderado por um ex-combatente conhecido como Guacho, que assim como outros líderes dissidentes estaria enriquecendo com o narcotráfico. Segundo um comunicado do Ministério da Defesa, os agressores “lançaram pelo menos cinco cilindros-bomba contra os integrantes da força pública e contra a multidão que se encontrava no local, e depois atacaram os manifestantes e autoridades com fogo indiscriminado de fuzis e metralhadoras”.

O incidente ocorreu por volta de 10h desta quinta (8h em Brasília), quando agentes da Polícia e membros do Exército escoltavam as equipes encarregadas de erradicar os cultivos da zona. A produção de coca na Colômbia aumentou 52% em 2016, segundo o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODOC, na sigla em inglês). Ou seja, passou de 96.000 para 146.000 hectares, uma cifra muito semelhante à encontrada 15 anos atrás, e a expansão se concentrou em alguns territórios como Putumayo, Norte de Santander e Nariño.

O ataque mostra o risco representado por grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a guerrilha marxista que em agosto concluiu a entrega de armas e há um mês se transformou em um partido político, e as dificuldades de se fazer frente aos cultivos de coca que regem a economia rural em algumas regiões. As autoridades afirmam que mais de 115.000 famílias em 13 departamentos estão dispostas a se inscrever nos planos de substituição voluntária de aproximadamente 90.000 hectares de coca. Por enquanto, 21.902 núcleos familiares se envolveram no processo. No entanto, este programa não conseguiu frear o descontentamento de um setor importante da população, e muitos camponeses, alentados pelo crime organizado, combatem abertamente a erradicação da folha de coca.

A Polícia e o Exército afirmam que, segundo informações da própria comunidade colhidas depois do ataque, “Guacho e seu bando não só levam forçadamente a população ao suposto protesto social como também disparam contra eles bombas, fuzis e metralhadoras de maneira indiscriminada”. Seu objetivo consiste em evitar “a erradicação dos cultivos ilícitos extensivos que pertencem a esta organização criminosa”. O procurador-geral da Colômbia, Néstor Humberto Martínez, calcula que os lucros deste grupo dissidente, que pertencia à frente Daniel Aldana das FARC, poderiam chegar a 25 milhões de dólares (78,8 milhões de reais) por semana.

A Associação de Juntas de Ação Comunitária da região, que representa as comunidades camponesas, afirma que o confronto ocorreu porque as forças de segurança atuaram com desproporção ao tentar dissolver o protesto. O Conselho Comunitário do Povo Negro Alto Mira e Fronteira responsabiliza diretamente as brigadas do Exército. O episódio demonstra, em todo caso, que a Colômbia, recém-saída de uma guerra de mais do meio século, ainda não resolveu o problema da violência, sobretudo nas zonas rurais.

O Governo de Juan Manuel Santos e o Exército de Liberação Nacional (ELN), outro grupo insurgente do país, iniciaram nesta semana um cessar-fogo que por enquanto se prolongará até janeiro e significa um passo decisivo. Pela primeira vez em décadas, os colombianos não sofrerão uma violência de origem política ou ideológica. Não obstante, a inatividade das guerrilhas abre caminho para que grupos criminosos e dissidências reais ou autoproclamadas assumam o controle dos negócios ilegais e subjuguem a população do campo, que, por sua vez, reclama uma maior atenção do Estado.

Uma visita feita há duas semanas a uma aldeia cocaleira do departamento do Guaviare (centro-sul) permitia comprovar que os camponeses que abandonaram esse cultivo agora pedem que o Governo não os abandone. Reivindicam alternativas produtivas, proteção e infraestrutura; em outras palavras, uma reinserção real na sociedade e um controle dessa transição iniciada quando o Governo assinou seu acordo de paz com as FARC.

 

Com El País

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